Está na hora de falar sobre adoção

Betta Alves passou em 13o lugar no Ranking Internacional do Masters in Clinical, Social and Intercultural Psychology na melhor universidade de pesquisa da Itália, onde expandirá sua pesquisa sobre adoção
Existem histórias que, se roteirizadas, dariam um verdadeiro filme. A da itaperunense Betta Alves certamente é uma delas. Formada em psicologia pela UniRedentor/Afya e vocacionada a ser pesquisadora, ela tem chamado a atenção de inúmeras pessoas pelo país ao tocar em um tema ainda espinhoso em nossa sociedade: a adoção. Isso porque, sendo fi lha adotiva e, agora, vivendo o mesmo processo para tornar-se mãe por adoção, Betta vem desenvolvendo uma pesquisa sobre processos de violência silenciosa no contexto adotivo, que será tema de um mestrado na Itália, coroando assim um longo percurso de estudos e vivências em torno da adoção. Ela contou um pouco dessa trajetória ao Mania de Saúde. “Tudo começou com a minha própria história de adoção, pois fui adotada pelos meus pais ainda bebê. Eles abrigaram a minha genitora dentro da casa deles e já vinham ajudando-a através de uma amiga, que fez um contato dizendo que havia uma gestante necessitando de ajuda. Hoje costumo dizer que estávamos destinados a ser uma família, mesmo que os meus pais ainda não soubessem. Afi nal, não estava nos planos deles ter outro filho. Eles vinham passando por um momento fi nanceiro complicado, já tinham três fi lhos, sendo que a mais nova havia chegado por adoção também. Eles já haviam passado por muitos desafi os e preconceitos na família por conta disso. Mas a minha genitora demonstrava que não queria fi car comigo e verbalizou isso para os meus pais. Então, eles fizeram tudo dentro dos moldes da lei de adoção que a gente tem hoje e, assim, nos tornamos uma família”, diz Betta. “Sempre tive orgulho de compartilhar minha história com as pessoas e sempre soube que eu havia sido adotada. Esse carinho e essa transparência que os meus pais tiveram foram essenciais, porque a adoção precisa ser normalizada como uma maneira de constituir uma família, o que é, aliás, o cerne dos meus estudos”, acrescentou. Sempre atuante em grupos de adoção e em todos os debates sobre o assunto, Betta adquiriu enorme experiência em seu percurso, fazendo da adoção o tema de sua vida, tornando-se inclusive mãe. “Ter me deparado também enquanto mãe por adoção foi um divisor de águas para minha vida e para a minha decisão enquanto pesquisadora nessa área. Isso me deu a certeza de que a adoção é um processo natural e legítimo de se tornar uma família. Até porque, no dia a dia, quando nós temos um fi lho, ou somos fi lhos e temos nossos pais, nós não os amamos porque eles têm uma genética próxima da gente. Nós os amamos porque crescemos ao lado deles. Não é biologia, não é DNA”, afirma. Segundo a pesquisadora, é fundamental encarar o processo adotivo sob novas perspectivas. “A gente fala muito de adoção, porém de uma maneira equivocada. É comum, por exemplo, tratá-la como um gesto bonito, como caridade, sem falar de várias outras questões que permeiam esse processo. A gente normaliza que a adoção seja algo demorado, que inúmeras crianças crescem dentro de abrigos e que existem muito mais pretendentes à adoção do que crianças a serem adotadas. Hoje em dia, a adoção não cumpre aquilo a que ela se propõe, que é encontrar famílias para essas crianças e não crianças para essas famílias. Mas a maneira como o sistema foi construído fez dele simplesmente um supermercado no qual os adultos escolhem aquilo que eles desejam. Essas e muitas outras questões precisam ser debatidas para mudarmos essa realidade”, destaca. No começo desse ano, Betta alcançou uma nova vitória para expandir esse tema. Ela conquistou o 13o lugar no Ranking Internacional do Masters in Clinical, Social and Intercultural Psychology na melhor universidade de pesquisa da Itália, a University of Padua, onde fará um mestrado. “Foi uma surpresa enorme para mim. Não imaginava que conseguiria estar em um lugar tão incrível para desenvolver a pesquisa dos meus sonhos. Trata-se de uma universidade de prestígio, que mantém contato com uma série de universidades em outros países, para onde vou poder levar minha pesquisa. A ideia é que ela seja multicêntrica. Ou seja: não vou apenas tratar da adoção no Brasil, mas trabalhar também o comparativo entre outros países, entre outros sistemas, a fi m de propor novas práticas”, explica Betta. “Hoje estou em um grande movimento para conseguir arrecadar dinheiro e fazer a diferença. Estou fazendo uma vaquinha on-line, que será reaberta agora em setembro, por Pix, para quem puder ajudar nessa pesquisa, nessa jornada, a fi m de transformar essa realidade. Até porque ela precisa e merece ser mudada”.