Aos nossos pais

(*) Sthevo Damaceno é jornalista e
editor do jornal Mania de Saúde.
sthevodamaceno@maniadesaude.com.br

“A chuva pingando desenterrou meu pai…” Impossível não lembrar do famoso poema de Carlos Drummond de Andrade ao pensar no mês em que se comemora o Dia dos Pais. Os poetas, sempre eles, são mesmo a antena da raça, como dizia Ezra Pound. Em poucas linhas, são capazes de condensar um manancial de significados que, não raro, levariam páginas e páginas para serem inteligíveis.
Isso quando não resumem tudo em apenas um vocábulo, como o baião hindu “Avôhai!”, que abriu as portas do sucesso para Zé Ramalho. Como lembra Zuza Homem de Mello, em ótimo estudo sobre o compositor paraibano, a palavra criada por ele remete à saudação fenícia “Adonai”, muito utilizada como mantra, fazendo assim uma ponte direta do sertão com o oriente, sobretudo pela fusão da viola dos repentistas com o suporte rítmico hindu. Já a letra, longa e sem repetições, surgiu de uma vez só, “mal tendo o autor tempo de escrever o que lhe vinha à mente, ao mesmo tempo em que uma voz lhe soprava ao ouvido: Avôhai! (Avô e Pai)”.
É curioso evocar o vocábulo proposto pelo poeta do repente e, de repente, lembrar-me que ela sempre me vinha à cabeça ao visitar meu falecido avô, junto com meu pai. Menino, embasbacava-me ao notar a incrível semelhança entre aqueles dois homens, como se fossem espelhos com apenas algumas distorções entre um e outro, mas que pareciam espelhar todo o meu futuro.
Essa sensação salta-me aos olhos, agora, ao olhar para minhas mãos e notar a sobressalência de minhas veias, pois era exatamente o que me fazia perder horas quando, mais novo, sentava-me perto de meu pai, sempre a observar as mesmas veias sobressaindo na pele calejada. Ele escrevia coisas em seu caderno enquanto eu me hipnotizava com aqueles movimentos. Hoje, porém, tenho mãos idênticas àquelas, com as mesmas veias, como se fossem camadas sobrepostas dos mesmos espelhos que formam minhas raízes.
Nesse instante, lembro-me de Mario Quintana, ao versar sobre o próprio pai, cujas mãos tinham “grossas veias como cordas azuis sobre um fundo de manchas já cor de terra”. Ou de Ricardo Ramos, que nos legou o “Retrato Fragmentado” de seu pai, Graciliano Ramos, onde detalhara momentos similares de afeto e grandiosidade do autor de “Vidas Secas”.
É uma surpresa agradável ter esses volumes em mãos e pensar em tais circunstâncias, notando a influência paterna que, conscientemente ou não, se exerce sobre nós. Quintana, aliás, estava certo: nas mãos de nosso pai é que a vida transfigura, trazendo um pouco de luz para a terrível solidão do mundo.