Passagem do ano

Dizem que a vida é mais estranha do que a ficção, não é mesmo? Do contrário, ela não seria repleta de espantos e incongruências capazes de surpreender até os mais talentosos roteiristas hollywoodianos. No próprio cinema, o diretor Marc Foster transformou essa ideia em um ótimo filme, onde um auditor de receita começa a ouvir uma voz feminina em seus pensamentos e, entre confuso e perplexo, descobre que ela é uma autora de livros – e ele é um de seus personagens, que está prestes a morrer. A partir daí o tal auditor inicia uma busca frenética em torno da autora da trama, a fim de revertê-la a seu favor. Mais estranho que a ficção – eis o nome do filme, lançado em 2006.
Fico pensando o que Marc Foster diria se vislumbrasse, lá atrás, os acontecimentos de 2020, com a pandemia do novo coronavírus, que às vezes dá a impressão – desoladora – de ter apagado todo o modus vivendi de antes, sem definir muito bem como seriam os tempos seguintes à sua chegada. Só mesmo um Kafka – sobretudo se fosse brasileiro – talvez pudesse elaborar uma trama tão controversa, capaz de mudar a vida não de um, mas de simplesmente todos os personagens do planeta, em um tipo de literatura que mais assusta do que comove.
Felizmente, porém, somos vocacionados à esperança. Até porque, como diria o Gullar, o sofrimento, no fundo, não tem nenhum valor, já que até os bichos e insetos mais insignificantes querem estar contentes. E o último dia do ano não é o último dia do tempo, nem o último dia de tudo, como escreveu Drummond. Outros dias virão e sempre haverá uma franja de vida, onde se sentam “um homem e seu contrário/ uma mulher e seu pé/ um corpo e sua memória/ um olho e seu brilho/ uma voz e seu eco/ e quem sabe até se Deus…”. Segundo o poeta, quando surge a manhã de um novo ano, as coisas estão limpas e ordenadas, o corpo se renova em espuma e todos os sentidos alerta funcionam, já que a “boca está entupida de vida”, lambuzando “as mãos, a calçada”, pois “a vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia”…
Estes versos, curiosamente, não me vêm à memória somente pelas efemérides de fim ano, mas pelo encontro, fortuito, com outro poeta, o amazonense Thiago de Mello. Ao final de um belo sarau dele, feito certa vez em Campos, ouvi do poeta algumas palavras generosas sobre Drummond, onde ele chamava a atenção para a esperança do itabirano, que aparecia mesmo em meio aos versos mais desolados, como que a provar o valor dos grandes sentimentos acima de qualquer ceticismo.
Algo muito parecido com o próprio Thiago, que além de ter sofrido com o exílio, a distância – e a morte – de grandes amigos, como Neruda e José Lins do Rego, entre outras duras experiências narradas em versos, nunca deixou de exaltar a esperança ou de estender, aos outros, um ramo de sol, ainda que o gesto lhe doesse as mãos. O motivo é que o poeta sempre colocou a vida a serviço da vida – e ele não tinha um “caminho novo, mas sim um novo jeito de caminhar”.
Que a experiência – e luminosidade – de ambos nos inspire a desenhar o novo ano que se aproxima, com mais fraternidade e alegria, desejando que ele seja repleto de saúde, paz e prosperidade para todos nós.