ONCOGENÉTICA e a importância do Aconselhamento Genético em Câncer

Dr. Gustavo Drumond Lopes
Oncologista Clínico pelo Instituto Nacional do
Câncer – INCA – RJ.
Pós-graduando em Predisposição Hereditária ao Câncer pelo Hospital Israelita Albert Einstein – HIAE-SP

O Câncer deve ser considerado uma questão de saúde prioritária por diversos motivos:
– Trata-se de uma doença cada vez mais comum no Brasil. Segundo o Inca, são previstos 625.370 casos para o ano de 2020.
– Apresenta uma mortalidade elevada, sendo uma das principais causas de morte no Brasil.
– Existe a possibilidade da redução do número de casos e da mortalidade através de medidas de diagnóstico precoce e prevenção de casos novos.
A Oncogenética representa a confluência de duas áreas da medicina que apresentaram grandes avanços tecnológicos nos últimos anos: a Oncologia Clínica e a Genética Médica. Isto tem levado, sem dúvida, grandes benefícios aos nossos pacientes no combate ao câncer.
O câncer é uma doença caracterizada pelo acúmulo de diversas mutações no material genético (DNA) das células humanas. Algumas destas mutações são herdadas de nossos pais através dos óvulos e/ou espermatozoides, conhecidas como mutações germinativas ou hereditárias. Outras mutações são consideradas somáticas ou adquiridas. Estas últimas podem ser provocadas por estímulos externos ou hábitos de vida que levam à lesão do DNA, como fumo, álcool, obesidade, entre outros.
O médico Oncologista Clínico, que atua em Oncogenética, possui um amplo papel na assistência do paciente oncológico e/ou das famílias com risco familiar/hereditário para câncer, desde a prevenção, passando pelo diagnóstico e pelo tratamento oncológico. Em geral, a principal ferramenta de atuação do médico será o Aconselhamento Genético em Câncer.
O Aconselhamento Genético em Câncer representa uma avaliação integral dos pacientes oncológicos e de seus familiares em situações que haja suspeita de Síndromes Hereditárias de Predisposição ao Câncer. Devendo sempre ser valorizado e compreendido o impacto psicossocial das doenças no paciente e nas famílias que buscam este aconselhamento.
Cerca de 10 a 15% dos casos de câncer podem ser atribuídos à presença destas síndromes hereditárias, sendo alguns tumores com risco maior, como Câncer de Mama, Ovário, Colón e reto, Próstata, Endométrio, Pâncreas, entre outros.
Algumas características clínicas podem sugerir a presença de uma síndrome hereditária:
– Idade precoce de apresentação.
– Tumores bilaterais como Câncer renal nos dois rins.
– Tumores múltiplos como Câncer de Colón e Endométrio.
– Tumores raros como Câncer de Mama em homem ou Câncer da Glândula Adrenal.
Na consulta de aconselhamento genético em câncer, deve ser realizada uma história pessoal completa sobre a presença de tumores prévios, os tratamentos realizados, a presença de outras alterações ou doenças que levem a um risco maior de câncer, o histórico ginecológico/gestacional/obstétrico, o uso de álcool e tabaco, entre outros. A história familiar de câncer ou outras doenças relacionadas também deve ser completa e abordar, pelo menos, membros das três gerações na família do paciente. Deve incluir o tipo de câncer, a idade do diagnóstico, os tratamentos realizados, a idade do óbito, a confirmação, se possível, com o exame anatomopatológico, entre outros.
Após a consulta de aconselhamento, deverá ser avaliado o risco de câncer hereditário no paciente e na sua família baseado no histórico pessoal e familiar e nos modelos matemáticos de risco disponíveis para diversos tumores. Em certos casos, poderá ser solicitados testes genéticos para identificar a presença de mutações germinativas patogênicas que levam a um risco aumentado de câncer. Outra etapa importante deste processo é o aconselhamento pós teste, no qual será informado o significado dos resultados dos testes genéticos realizados e as medidas pertinentes a serem adotadas.
Caso seja identificado uma mutação patogênica, devemos orientar o manejo dos casos visando uma prevenção e vigilância adequada para redução dos casos de câncer, para o diagnóstico precoce dos casos e para redução da mortalidade. Isto pode ser feito através de exames de imagem como mamografias ou através de cirurgias profiláticas como a mastectomia bilateral (retirada das mamas) em alguns casos. Na presença de uma mutação patogênica no paciente, deve ser recomendado o rastreamento genético (pesquisa da mesma mutação) em seus familiares.
Além disso, o médico pode atuar em outras situações no campo da Oncogenética:
– Avaliando o risco de Câncer de Mama em mulheres saudáveis através da utilização de modelos para o cálculo de risco. Estes modelos levam em consideração diversas informações como histórico pessoal e familiar, histórico ginecológico e obstétrico, alterações em mamografias e biópsias de mama, entre outros. Caso apresente risco elevado, pode ser proposto o uso de medicações para reduzir o risco de Câncer de Mama como o Tamoxifeno ou Raloxifen.
– Auxiliando ao Oncologista Clínico na escolha do melhor tratamento após cirurgia no Câncer de Mama com características patológicas e moleculares específicas no tumor como receptor de hormônio positivo e Her2 negativo. Existem diversos testes genéticos/moleculares com este objetivo, sendo os mais utilizados o Oncotype DX® e Mammaprint®.
– Definindo, em conjunto com a Oncologia Clínica, o melhor tratamento medicamentoso como quimioterapia ou imunoterapia em diversos tumores, através da análise de certas alterações somáticas no tumor como mutação de receptores das células (EGFR ou HER2) ou mutações em genes específicos (BRCA, MLH1, MSH2).
Em resumo, o papel e a responsabilidade do médico que atua em Oncogenética são inúmeros, assim como são os benefícios para o paciente e sua família que tenham a oportunidade de acesso a esta modalidade de assistência.

Fontes: INCA – Brasil / NCCN – EUA