Gastroenterologia na Terceira Idade

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O envelhecimento populacional é um fenômeno cada vez mais perceptível na sociedade. A expansão do número de idosos (pessoas acima de 60 anos, segundo o critério adotado pela Organização Mundial da Saúde) tem criado vários desafios para os mais diferentes governos em todo o mundo, em suas mais diversas áreas, com destaque para a medicina, onde algumas especialidades possuem um papel preponderante para a qualidade de vida dos idosos. É o caso da Geriatria e da Gastroenterologia, que podem – e devem – andar juntas para garantir maior longevidade à população.
Para abordar o assunto, o Mania de Saúde ouviu o médico gastroenterologista e endoscopista Dr. Roberto Costa, que ressaltou como a preocupação com a saúde do idoso vem crescendo ano a ano. “Nas últimas décadas, as doenças crônicas não transmissíveis passaram a liderar as causas de óbito no Brasil, ultrapassando as taxas de mortalidade por doenças infecciosas e parasitárias como decorrência da queda de mortalidade e da fecundidade no país, aumentando o número de idosos, particularmente o grupo com mais de 80 anos. A expectativa é de que, nos próximos 20 anos, haja duplicação da população idosa no Brasil, de 8% para 15%, evidenciando a necessidade de nos atentarmos para isso”, diz Dr. Roberto.
Segundo ele, o envelhecimento é um processo normal, dinâmico e que envolve perda nos planos biológicos, sócio afetivo e político, refletindo diretamente na qualidade de vida de cada um. “Existem modificações gerais na fisiologia da idade que acontecem em todos os sistemas e órgãos do corpo humano que impactam no sistema digestório. Com o envelhecimento, os distúrbios gastrointestinais passaram a representar a terceira causa mais comum nos consultórios médicos. E, dentro das doenças gastrointestinais benignas, temos doença do refluxo gastroesofágico, úlceras pépticas, gastrite atrófica, diminuição da secreção pancreática e biliar e alteração da microbiota intestinal (leia-se diarreias ou constipação). Já dentro das doenças malignas, o câncer de cólon e reto é a segunda causa nas mulheres e terceira nos homens, as quais se tornam mais graves pela presença de comorbidades”, alertou.
Dr. Roberto ressalta outros fatores que podem influenciar a saúde dos idosos nesse contexto. “O uso de vários fármacos diariamente impacta no dia a dia do paciente, levando a apresentar efeitos colaterais com maior frequência. O uso indiscriminado de anti-inflamatórios não hormonais leva estes pacientes a internações frequentes, como complicações de hemorragia digestiva alta e baixa por distúrbio de coagulação ou ação direta na mucosa digestiva. A disfagia (dificuldade de deglutição), por sua vez, acomete 10% da população de idosos em decorrência de problemas motores ou neoplásicos. A constipação intestinal e a doença dearticular do cólon são também bastante comuns nesta faixa etária. Na disfagia temos problemas odontológicos (perda dentária, prótese mal adaptada, boca seca), acidente vascular cerebral, doença de Parkinson e Alzheimer, e nas doenças orgânicas temos tumores benignos, malignos e hérnias volumosa”, destacou.
A doença inflamatória intestinal, conforme alerta Dr. Roberto, parece apresentar um segundo pico no início entre 60 e 80 anos. Como consequência, as morbidades gastrointestinais nos idosos representam um ônus mais relevante para o sistema público de saúde. “Diante desta complexidade de fatores que exercem sobre a população de terceira idade, levando o mesmo a experimentar agressões em diversos aspectos de sua vida, vê-se a necessidade da criação de uma nova especialidade denominada Gastrogeriatria, criando uma interface entre a Gastroenterologia e a Geriatria. Como sugestão de abordagem médica simplificada da terceira idade, sugerimos um protocolo abrangendo não o aparelho digestivo, mas uma avaliação global e que possa interferir direta ou indiretamente no aparelho digestório, com diversas abordagens relevantes para a saúde da população”, frisa o médico, ressaltando tais abordagens.
“1) Exame periódico de 6/6 meses, abrangendo colheita de sangue na pesquisa de: glicose, ureia, creatinina, função hepática, colesterol, triglicerídeos, ácido úrico, função tiroidiana. Fezes e urina.
2) Estudo cardiovascular e angiológico.
3) Estudo prostático no homem e ginecológico, nas mulheres.
4) Ultrassonografia abdominal total e se necessário tomografia ou ressonância abdominal de acordo com a indicação médica.
5) Colonoscopia de 5/5 anos a partir dos 50 anos, rotineiramente ou abaixo, quando existir caráter familiar ou história de perda de sangue retal.
6) Endoscopia digestiva alta em vigência de queixas digestivas, emagrecimento ou anemias a esclarecer.
7) Avaliação do calendário vacinal, que muitas das vezes é negligenciado nesta faixa etária.
8) Avaliação nutricional do paciente quando for necessário, orientando e avaliando as perdas e as necessidades de cada idoso, assim como estudo psicológico ou psiquiátrico em caso de distúrbios cognitivos e de humor.
9) A integração da família envolvendo este idoso e os cuidados como programação da atividade física e alertando-o sobre o uso indiscriminado de automedicação.
Filosoficamente, o ser humano já nasce tendo a necessidade de entender e de assimilar sua existência e as implicações de sua finitude, que a vida estabelece como forma inquestionável, mas cabe à medicina interferir nesta trajetória e oferecer melhor qualidade de vida para todos”.