Eis que “O Encontro Marcado”, obra-prima do mineiro Fernando Sabino, chega à 100ª edição. É sempre bom ver um clássico da literatura nacional alcançar tamanha longevidade no mercado, especialmente num país onde os livros costumam ser mais citados do que lidos, enquanto outros se tornam raridade, por falta de circulação nas livrarias. Mas “O Encontro Marcado” está vivo, vivíssimo, com todo seu frescor humano, que marcou várias gerações ao longo do tempo.
Lançada em 1956, a obra de Sabino é um misto de autobiografia e ficção, que condensou na história de Eduardo Marciano todos aqueles dramas existenciais perenes em cada um de nós desde a juventude, como a escolha do futuro, a força das amizades, que fim levará nossas escolhas, a existência de um amor verdadeiro, a ideia de vocação, ou tudo aquilo que o Ferreira Gullar preferia resumir numa pergunta: “a que me destino?”.
É curioso, também, ler “O Encontro Marcado” em plena era digital, devido à forma como Sabino narra a infância de Marciano e a chegada à vida adulta junto a seus companheiros de geração, que viviam um mundo totalmente analógico, onde as relações não eram intermediadas pela tela do celular. Quem viveu a era pré-internet sem dúvidas se identificará logo nas primeiras páginas, ao se deparar com uma história que lida o tempo inteiro com o afeto humano, com todas as experiências que formam o indivíduo, onde a ideia de impessoalidade e distanciamento é praticamente nula. Cada leitor parece rever sua infância antes da chegada do politicamente correto, enxergar sua juventude sem estereótipos e se identificar com os dramas de quem se torna adulto sem ter se preparado muito bem para isso, demonstrando como processo de crescimento é complexo em qualquer tempo e qualquer lugar. 
Mas nenhum deles é melhor para retratá-lo do que a literatura, sobretudo nas mãos de quem sabia fazê-la. Tanto que “O Encontro Marcado” é repleto de referências variadas da cultura ocidental, tendo ainda a aparição de alguns personagens reais em forma de ficção, como o trio de amigos do autor, composto por Otto Lara Resende, Hélio Pellegrino e Paulo Mendes Campos, que potencializam a carga humanística do livro. 
Por isso, ver “O Encontro Marcado” chegar a uma reedição histórica é uma ótima notícia em um país tão calamitoso, ainda mais sendo ela a obra máxima de Fernando, que até hoje vive na memória afetiva de tantos e tantos leitores. 
Dele depreende-se a mesma sensação provocada na amiga do escritor, uma ucraniana chamada Clarice Lispector, que, em carta a Sabino, declarava: “nunca me senti tanto pertencendo a uma geração. Me deu essa impressão de ‘estarmos todos no mesmo barco’. Me deu a certeza de um encontro marcado, e a esperança”.

Texto produzido em: 23/10/2018