Nos últimos meses, o público brasileiro caiu nas graças da série Merlí, que mostra como a chegada de um professor de filosofia em um colégio público de Barcelona, na Espanha, muda radicalmente a vida dos alunos. Todo capítulo traz o nome de um filósofo que será discutido em sala de aula, onde o professor, Merlí, esmiúça o conhecimento dos alunos e participa de seus dramas familiares, explicitando como a filosofia pode fazer diferença na formação de cada um eles. 
Não por acaso, a série foi saudada publicamente por educadores como Leandro Karnal e Renato Janine Ribeiro, professor do Departamento de Filosofia da USP e ex-Ministro da Educação. Ambos ressaltaram como Merlí chega num momento em que tanto se debate a valorização da filosofia no ambiente educacional brasileiro.
Alessandra Gualda, professora de filosofia do Colégio Redentor, falou ao Mania de Saúde sobre a disciplina. “A Filosofia voltou a ser matéria na grade há pouco tempo, assim como a Sociologia. Ela auxilia as outras disciplinas do campo das Ciências Humanas no processo de análise da realidade. Também produz discussões interessantes, que podem proporcionar ao aluno uma melhora na sua capacidade não só de análise, mas também de argumentação. Mas, mais do que isso, acho a Filosofia extremamente necessária, não só como disciplina, mas para a vida! Ela auxilia em vários aspectos, como por exemplo no ato reflexivo, no processo questionador, na elaboração do senso crítico, no respeitar o pensar do outro...  Por isso ela é tão fundamental. Pensar em retirar a disciplina do currículo representaria um retrocesso na formação de cidadãos na excelência desse conceito”, diz a professora.
Ela destaca o papel de séries como Merlí e a receptividade dos alunos para com a filosofia. “Vários dos meninos já assistiram às três temporadas de Merlí. Aliás, soube da série por eles. Isso é legal. Gera a ideia de que a Filosofia não é só disciplina de colégio. Ela está no nosso dia a dia. A maioria dos alunos é bastante receptiva! No princípio, há o estranhamento por parte de alguns, mas, com o passar do tempo, a maioria adere à proposta das aulas. Os alunos, de fato, gostam muito. Eles adoram se colocar, defender seus pontos de vista e entender opiniões diferentes das suas. Para a minha felicidade, muitos levam a Filosofia para a vida mesmo. Repensam antigos conceitos e são capazes de mudar de opinião ou escutar melhor e entender outro ponto de vista. Essa semana mesmo, escutei de um aluno que, diante desse ou daquele problema, ele tem adotado uma atitude ‘mais estoica’. Com isso, ele quis dizer que estava tentando parar de sofrer com aquilo que estava além de suas possibilidades de mudança. Ele ter aprendido isso com as aulas de Filosofia é bem legal”.
Professora Alessandra revela, também, um dos métodos que costuma aplicar em sala de aula. “Uso muito a etimologia das palavras, pois elas nos ajudam a iniciar o processo de filosofar. Como a própria filosofia, que tem origem grega e significa ‘amor ao saber’. Uma outra palavra essencial para o ato de filosofar é: reflexão. Ela tem origem latina; ‘re’ prefixo, que dá ideia de repetição, de outra vez, e ‘flexus’, que seria flexionado, dobrado. Dessa forma, a reflexão é dobrar-se, flexionar-se mais uma vez sobre algo que já pensamos ou que alguém já pensou. É o contrário de reafirmação, que se apega a uma verdade absoluta, incontestável. Em um momento de antagonismos extremistas, creio que a reflexão seria mais útil do que a reafirmação”, destacou.
Mas não é só Merlí que tem contribuído para a popularização da filosofia. Nos últimos anos, várias editoras se dedicaram a lançar livros acessíveis sobre a área. Alessandra também comenta essa postura. “Sobre o mercado editorial, precisamos, antes de tudo, separar Filosofia de Autoajuda. Temos percebido também o aparecimento de filósofos de formação acadêmica ganhando status de autores de best sellers, o que ajuda a difundir a necessidade de pensar sobre as coisas que estão ao nosso redor”, concluiu.

Texto produzido em: 15/04/2018