O uso indiscriminado de hormônios, no Brasil, tem sido cada vez mais questionado pela classe médica. E com razão. Afinal, a maneira como esses produtos se popularizaram acaba gerando uma ideia de normalidade quanto à utilização deles, mas a verdade é que a falta de cuidado e de orientação pode ser mais nociva à saúde do que se imagina. Hormônio é coisa séria e requer uma indicação adequada. É o que afirma o Dr. Cláudio Cola, especialista em Clínica Médica, Pós-Graduado em Medicina Ortomolecular e professor do curso de Medicina da UniRedentor.
Mania de Saúde – Como o Sr. vê o uso de hormônios no Brasil hoje? Quais tipos de público estão utilizando e para que finalidade? 
Dr. Cláudio Cola –
Na prática médica temos observado um crescente e inadequado uso de hormônios pela população em geral, quer seja por iniciativa própria, por “indicações” de leigos ou até mesmo por equivocadas prescrições de profissionais da área de saúde. Hoje tem sido comum receber no consultório pessoas que usam Melatonina e Dhea, por exemplo, comprados em viagem para o exterior, simplesmente porque “um amigo indicou e disse que é bom”. É muito comum também o uso indiscriminado de “shakes” de marcas famosas, indicados para diversas finalidades, apresentados como naturais, vendidos sem prescrição médica, que não trazem no rótulo a informação de conterem hormônios, mas que, baseado nos seus efeitos e sobretudo no quadro clínico de abstinência que surge quando são suspensos, apresentam grandes indícios de terem carga hormonal muito efetiva na sua composição. O exemplo clássico associado a este problema sempre foi e continua sendo o “mercado negro de suplementos” que cresce, sem nenhuma supervisão dos órgãos reguladores, na mesma medida em que aumenta a vontade de “pegar corpo”. 
Mania de Saúde – Quais casos os médicos têm se deparado no consultório devido ao uso indiscriminado de hormônios? Existe algum problema mais prevalente ou é variado?
Dr. Cláudio Cola –
Esse cenário tem feito crescer o número de pacientes que chegam ao consultório com patologias causadas justamente por esse inadequado uso de hormônios: são crianças usando hormônios de tireoide para promover o crescimento sem ter disfunção tireoidiana ou mesmo déficit do Hormônio do Crescimento e acabam com hipotireoidismo; indivíduos com sonolência diurna exagerada associada à superdose de Melatonina; ou indivíduos que passaram a apresentar sintomas de excesso de cortisol quando começaram a usar Dhea; usuários de shakes que “só emagrecem enquanto usam”, apresentam sinais de supressão hormonal e ganham peso quando param de usar o produto; tentativas frustradas de ganho de massa muscular levando à alterações hepáticas e testiculares após “ciclos hormonais” sem nenhum fundamento ou justificativa clínica; pacientes que desenvolveram até nódulos de tireoide ou tireoidites autoimunes porque estão usando hormônios de tireoide visando “acelerar o metabolismo e emagrecer”.
Mania de Saúde – Que riscos esses produtos geram no homem e na mulher se empregados de maneira inadequada?
Dr. Cláudio Cola –
Os efeitos colaterais de hormonioterapia inadequada em relação ao sexo estão relacionados a quadros de trombose, acidente vascular encefálico nas mulheres de grupo de risco para a reposição hormonal com estrogênios e casos de tumores de testículos pelo uso indiscriminado do uso de testosterona. Na verdade, as maiores complicações da hormonioterapia mal indicada não se relacionam a sexo ou idade, já que a maioria dos hormônios excessivamente usados têm efeitos em todos e em qualquer faixa etária.
Mania de Saúde – Como esses produtos deveriam ser ministrados e em quais casos?
Dr. Cláudio Cola –
A população médica tem a obrigação de conscientizar a população de que hormônios são substâncias produzidas pelo organismo, a partir de glândulas específicas, segundo um equilíbrio de consumo e produção, que é controlado por vários fatores, incluindo outros hormônios. Ou seja, quando você “consome” um hormônio, seu corpo é informado disto e aquela glândula o “produz” novamente, conforme a sua necessidade metabólica, que é indicada de várias formas, dentre estas, outros hormônios. Uma vez reposta aquela dose hormonal, o metabolismo informa a glândula que a dose está normal e esta para de produzir, só voltando à atividade quando for necessário repor o hormônio. Sendo assim, exceto em situações patológicas (tumores) ou fisiológicas (menopausa), que levem ao desiquilíbrio entre produção e consumo, nunca se deve ministrar um hormônio por qualquer motivo que seja, por que isto levaria a total desorganização deste ciclo metabólico, incluindo o “congelamento” da glândula que produzia aquele hormônio que, imediatamente, para de funcionar ao receber a informação de que o seu produto já está presente na circulação em doses excessivas.
Mania de Saúde – A que o Sr. credita esse uso indiscriminado? 
Dr. Cláudio Cola
– São muitos fatores envolvidos, mas, sem dúvida nenhuma, a desinformação associada ao ineficaz controle dos órgãos reguladores e a “pressão” exercida pelos falsos e transitórios resultados de terceiros levam a sociedade a arriscar sua saúde nesta prática extremamente perigosa. A classe médica precisa criar a cultura que existem situações onde é necessária a reposição hormonal, ou seja, recompor o equilíbrio cíclico hormonal que foi alterado por uma patologia ou em um natural declínio fisiológico. É preciso deixar claro que isto é saudável, é um pilar do envelhecimento com qualidade de vida, portanto, necessário que seja acompanhado e prescrito por um médico. O que não é justificável, e por isso muito prejudicial à saúde, é a suplementação hormonal, que seria acrescentar indiscriminadamente hormônios ao organismo, quebrando o ciclo fisiológico hormonal quando este está são e normal, visando obter resultados temporários ou “maquiagens” no controle do peso ou no ganho de massa muscular, utilizando “fórmulas”, “shakes”, “suplementos” aparentemente naturais e inocentes, mas que, na verdade, são bombas com grande poder de destruição. A Medicina Ortomolecular já está associada a este controle hormonal pela população em geral e por isso, como em qualquer outra área médica, é preciso que os seus verdadeiros profissionais sejam facilitadores do entendimento do risco que se corre com o uso inadequado de um hormônio e, sobretudo, criteriosos na indicação de uma hormonioterapia. A população precisa disto e tem esse direito, sendo esta nossa obrigação, da qual não podemos nos esquivar sob pena de sermos cúmplices desta prática perigosa e injustificável.

Texto produzido em: 24/07/2017