Alguém notou que o Congresso Nacional é capaz de gerar notícias menos alarmantes para o país?
Uma delas ocorreu no dia 20 de setembro, na sala da presidência da Câmara, onde o deputado Fábio Ramalho montou, para seus pares e para a imprensa, uma mesa com queijos artesanais e linguiças fritas. Os produtos (assim como o parlamentar) vinham de Minas.
Farra com dinheiro público? Nada disso. Tratava-se de um protesto mineiro contra a Vigilância Sanitária. Ela recolheu mais de 80 kg de queijo e de linguiça em um estande gastronômico, no Rock in Rio, pelo simples fato dos produtos não portarem o selo do Serviço de Inspeção Federal (SIF), mesmo estando dentro da validade – o que gerou grande revolta nas redes. 
Para o deputado mineiro Eros Biodini, por exemplo, o queijo de Minas foi tratado como lixo, num enorme desrespeito às famílias que produzem o alimento. A revolta foi tamanha que dezenas de parlamentares, ministros e agentes da Câmara encheram as mãos de Rodrigo Maia de queijos, na tentativa de fisgá-lo pela boca e assim aprovar uma medida provisória que isentasse os produtos artesanais do controle do Ministério da Agricultura. Atualmente, eles passam pela inspeção dos órgãos estaduais, mas dependem do selo federal para serem comercializados em outro estado. A Lei 7.889, de novembro de 1989, veda o comércio interestadual e internacional desses produtos, o que gerou a apreensão no evento. 
Fábio Ramalho aproveitou a oportunidade para exaltar a alma mineira. Segundo ele, em Minas, não existe PT, PMDB ou PSDB. “O nosso partido é o partido mineiro. Quem nasce no Rio, por exemplo, é carioca. Em Minas é mineiro. Somos o único lugar do país onde a pessoa nasce trabalhadora”. 
A declaração foi aplaudida no protesto que, segundo Fábio, partiu da mulher do governador de Minas, Fernando Pimentel. Ele, a propósito, deve ter sentido, no mês passado, um gosto amargo na boca, típico de um Brie de Melun. Isso porque Fernando tornou-se alvo de uma terceira denúncia na Operação Acrônimo. A acusação? Tráfico de influência e lavagem de dinheiro, conforme reportagem da Folha de S. Paulo. Mas isso é outra conversa... O caso é que a mesa de queijos na Câmara foi montada sob uma tela de Iberê Camargo. Boa parte da imprensa alardeou esse detalhe. Que diabos o famoso pintor gaúcho acharia disso?
Talvez ele se aborrecesse ao ver seu nome valorizado mais pela queijada dos congressistas do que pelo valor artístico da obra. Afinal, Iberê se incomodava com essas coisas. Basta lembrar a conversa dele com Clarice Lispector, registrada no livro Entrevistas, bela antologia dos trabalhos jornalísticos da autora de A Maçã no Escuro. (Neste livro, Clarice antecipou, em muito, o jeito despojado que surgiria depois no jornal O Pasquim, que deu um novo frescor ao jornalismo brasileiro nos tempos da ditadura – mas isso também é uma outra conversa). O fato é que Iberê se constrangia quando celebrado por qualquer motivo. Mas o incômodo aumentava quando as razões eram alheias ao seu trabalho. Ele próprio fez à Clarice, talvez sem saber, uma importante análise de arte, que também se enquadra à realidade política de Brasília. 
Clarice perguntou a Iberê se o rosto humano o interessava como objeto artístico. “Como pintor”, respondeu ele, “não tive interesse (por rostos). Mas, como pessoa, acho que o rosto reflete muito o indivíduo. O rosto revela a pessoa. Acho que quem se corrompe por dentro se corrompe por fora”. 
(Que leitura Iberê faria ao ver, nos jornais daquela semana, os rostos de certos presidentes estampados na capa?)
Aliás, por falar em queijos e artistas, lembrei-me de novo do Otto, o Lara Resende, que enviou longas cartas de Bruxelas ao amigo Fernando Sabino, no inverno de 1959, manifestando toda a saudade que sentia do queijo de Minas, para esquecer as conturbações políticas da época e, assim, tornar a vida mais leve.
O Otto, inclusive, era um mestre nessa arte. Adorava sua fama de causeur. Não à toa, foi um dos grandes definidores do espírito de Minas. Tanto no âmbito poético como no humor. Nelson Rodrigues atribuía ao Otto a famosa frase que diz que “o mineiro só é solidário no câncer”. Uma brincadeira, é claro. 
Mas tomara que, em tempos de reformas, os parlamentares também o sejam para além dos queijos e linguiças.

Texto produzido em 22/09/2017