Para fazer um Raio-X da saúde de Campos, dos seus problemas e dos desafios dos médicos, nossa reportagem ouviu o presidente do Sindicato dos Médicos de Campos dos Goytacazes (Simec), Dr. José Roberto Crespo. Ele falou sobre a formação profissional, o descaso do Governo Federal e do Estadual com os municípios do Rio de Janeiro e, também, as conversas com o Governo Municipal para resolver alguns dos problemas da cidade. Vale a pena conferir. 
 

Mania de Saúde – Como analisa a atual situação dos profissionais de medicina?  
Dr. José Roberto Crespo – O glamour da profissão de médico vem se perdendo para a realidade que a gente está vivendo. Antes você tinha 130 faculdades de medicina. Hoje você tem mais de 340 em todo o Brasil. Então, está se massificando a formação médica e não em boas condições de formação. O médico está malformado, está saindo mal da faculdade, a maioria não consegue alcançar residência e o governo está cortando as vagas. Então, o médico está saindo com uma formação capenga, ao mesmo tempo em que tivemos um “boom” de concursos públicos nos últimos 15 anos. As condições de trabalho eram melhores também, havia uma estrutura de trabalho, mas isto vem sendo destruído.
Mania de Saúde – O médico, enquanto servidor público, tem sofrido bastante...
Dr. José Roberto Crespo –
Hoje existe uma campanha ferrenha para destruir o servidor público, como se o servidor público fosse o causador de todo o caos que existe na administração. Na verdade, o servidor de carreira administrativa ganha mal. O que ganha bem, talvez, seja o servidor do judiciário, do legislativo. Mas o servidor da administração direta ganha muito mal, e o médico hoje tem o menor salário da administração pública – eu posso te dizer que a gente está em uma luta com o Governo Federal, com Ministério da Saúde. Nós, médicos, ganhamos hoje menos que a enfermagem, menos que a fisioterapia, menos que a nutrição, que o serviço social. Nós perdemos um ganho a nível de governo federal muito grande e estamos na luta desde 2012. O governo cortou uma gratificação que o médico tinha e manteve para as outras profissões. Então há um descrédito com o servidor público de uma maneira geral e o médico também entrou nessa linha. 
Mania de Saúde – Olhando para a saúde no nosso país, qual é o seu sentimento? O que pode ser feito em sua opinião?
Dr. José Roberto Crespo –
A saúde é o maior problema do Brasil! Nós temos um país com 200 milhões de habitantes e talvez 50 milhões de pessoas não têm acesso à saúde. Quando o SUS nasceu, há 25 anos, o Governo Federal praticamente assumia grande parte dos investimentos da saúde e, ao longo dos últimos 10 a 15 anos, o governo vem cortando seus repasses para os municípios. Isso vem acontecendo de forma persistente. O governo vem delegando cada vez mais para os municípios essa obrigação. E alguns municípios conseguem organizar de forma mais concreta o sistema, enquanto outros não. No estado do Rio de Janeiro é ainda pior, porque não tem o repasse para os municípios nem a sua obrigação constitucional, que são os 12% do orçamento. E Campos é o polo da região, somos o maior município do interior, absorvemos várias cidades que estão em torno da nossa região. É aqui que tem os tratamentos de câncer, de cirurgia cardíaca, da parte de nefrologia, de emergência. Isso custa caro. Claro que o Governo Federal repassa alguns recursos, mas, por exemplo, a emergência hoje é basicamente o município quem banca. São hospitais 24 horas por dia durante 365 dias do ano com várias especialidades. A gente sabe que cada vez mais existirão mais exigências, que a população cresce, que as unidades estão ficando defasadas. O hospital Ferreira Machado, por exemplo, já tem 60 anos, já está pequeno, a emergência está pequena para a demanda que existe. No Hospital de Guarus já se vê uma superlotação. O que quero dizer é que é preciso investir, porque é a vida humana que está em jogo, e não dá para economizar. É importante otimização dos gastos, como planejamento em conjunto e vontade política para realizar.
Mania de Saúde – Como andam as conversas com o Governo Municipal sobre os problemas que os médicos precisam enfrentar?
Dr. José Roberto Crespo –
As conversas são sempre boas. Eu tenho uma relação muito boa com o Governo Municipal em todas as áreas. Tenho conversado com o prefeito nas reuniões e digo a ele que precisamos olhar para a saúde com uma visão cidadã, social. Somos um município pobre, em que 90% da população depende do SUS. Então é importante que se otimize cada vez mais o nosso sistema. Nós temos hoje um quantitativo de postos de unidades básicas que talvez precisem ser enxutas ou, pelo menos, reestruturadas, mas eu acho que isso a secretaria já está caminhando e eu espero que se resolva. Não dá para fazer tanta economia com saúde. O que precisa é otimizar, montar uma estrutura harmônica, para que todo mundo saia satisfeito: o cidadão, o funcionário e o poder público.

Texto produzido em: 06/12/2017