Parece que o historiador israelense Yuval Noah Harari decidiu mesmo não sair da lista dos mais vendidos. Também pudera: suas obras, que já foram vertidas para mais de 50 línguas, tentam responder as eternas questões sobre quem somos, de onde viemos e para onde vamos, cujo apelo será sempre irresistível à grande massa de leitores. Tanto que suas “21 Lições Para o Século 21”, lançadas recentemente, chamaram ainda mais atenção por buscar entender a complexidade do século em que vivemos, abordando uma gama de temas que vão desde os riscos das chamadas fake-news até o futuro do emprego diante da inteligência artificial. 
Mas confesso que, apesar do forte embasamento histórico e científico de Yuval, ou mesmo de sua escrita agradável e inteligente, não deixa de ser um tanto quanto indigesto se deparar com diagnósticos tão distópicos (ainda que aparentemente assertivos) para este século, em que poderemos viver sob ditaduras digitais ou ter que buscar outras formas de sustentabilidade para sobreviver. Não que Yuval não tenha razão em suas análises. Mas é que a razão nem sempre é tudo.
Impossível não lembrar, dentro dessa temática, das “Sete propostas para o novo milênio”, que o escritor italiano Italo Calvino escreveu no século passado, de onde o título de Harari talvez tenha nascido. Claro que seria leviandade comparar as duas obras, cujas proposições e abordagens são totalmente distintas, mas quanta diferença faz ver o autor de “As cidades invisíveis” olhando para o futuro com tamanho humanismo, buscando inspirar leveza não só na literatura, mas em todas as áreas da vida! 
Seria bom, inclusive, se o Brasil de hoje prestasse mais atenção não só às análises de Yuval (que também tem seu lado humanista, evidentemente), mas sobretudo às de Calvino, em uma época onde tantos parecem enxergar a realidade apenas sob a ótica bruta de acontecimentos que, muitas vezes, como dizia o poeta, mais entendiam do que movimentam. 
Aliás, o demasiado interesse do público virtual pelas brigas políticas me lembram um pouco esse sentimento drummondiano expresso na abertura de “Claro Enigma”. Quem conhece o poeta de Itabira deve se lembrar quando ele, no furor da vitória dos aliados na Segunda Guerra Mundial, decidiu sentir-se mais ativo no mundo em que vivia, encarnando a figura do “poeta participante”, tão em voga no século passado. 
Pela primeira vez, portanto, o poeta da lua e do conhaque se interessou mais por política, tendo uma passagem rápida e traumática pelo comunismo, a ponto de engendrar “A rosa do povo”, livro que trouxe poemas mais participantes sem, evidentemente, dispensar a qualidade literária do nosso poeta maior. 
O problema é que logo Drummond esbarrou no óbvio: existe vida além da política, especialmente a partidária. A realidade é um tanto mais complexa do que certas cartilhas... Dito e feito: o poeta desligou-se de tudo e lançou “Claro Enigma”, seu melhor livro, um clássico que nasceu justamente quando Drummond, de fato, deixou de ser moderno para ser eterno. 
Claro que estou exagerando na pena (é mal de cronista!), mas seria bem-vinda uma dose de Drummond e de Calvino duas vezes ao dia para voltarmos a discutir assuntos mais relevantes e deixar o país andar. Enquanto tantos se ocupam com discussões inócuas, como diz meu amigo Marcelo, a literatura ocidental nos espreita, em silêncio. Pode ser um tanto quanto ufanista pensar assim, eu sei, mas, nessas horas, fazendo um cômputo geral, sempre me lembro de uma excelente tirada do saudoso Fernando Sabino: o otimista erra tanto quanto o pessimista, mas, pelo menos, não sofre por antecipação.

Texto produzido em: 17/02/2019