Vocês viram a história do índio de Tanaru? Ela foi divulgada pela Funai, que conseguiu gravar um vídeo do sujeito no mês passado. O índio não tem nome e passou os últimos 23 anos isolado na região ao sul de Rondônia, após perder seu grupo em conflitos de terras com grileiros. O motivo é arcaico: enquanto ele estiver naquele ambiente, a terra é dele, como preza a constituição. O problema é que alguns fazendeiros querem aquelas plagas e tentam matá-lo – mas o último habitante da terra indígena de Tanaru resiste, com a ajuda de sertanistas que deixam sementes e ferramentas pela floresta, onde ele costuma fazer palhoças e cavar buracos de três metros dentro delas, talvez para se esconder ainda mais de qualquer presença estranha.
O caso repercutiu no mundo inteiro não tanto pelo conflito de terras, como era de se esperar, mas pelo vídeo nada fake de um indivíduo ancestral, solitário, derrubando uma árvore com um machado rudimentar, enquanto era filmado por um dos agentes da Funai que o acompanha há 23 anos e jamais conseguiu uma aproximação com o índio (o máximo foram fugas cinematográficas e uma flechada no pescoço de um funcionário antigo). 
As pessoas que comentaram a notícia se espantaram profundamente com a solidão do índio, perguntando-se como ele consegue ficar sem ninguém a sua volta. A história me lembrou aquele eremita japonês, que também se tornou notícia ao ser descoberto numa ilha. Ao que consta, o indivíduo cumpriu toda sua vida profissional, aposentou-se e decidiu passar o fim da vida isolado na ilha. Porém, ao ser flagrado em situação de saúde frágil, as autoridades forçaram o homem de 82 anos a retornar à civilização. A história vai virar documentário e dividiu opiniões no mundo todo, pela simples vontade do eremita não ser respeitada pelo Estado a quem ele tanto contribuiu.
Evidente que um caso não se confunde com o outro. Ninguém, nem mesmo a Funai, sabe a história concreta do índio isolado em Rondônia, cujo caso inclui questões étnicas e históricas que impedem qualquer reducionismo. Mas é curioso como a notícia e a simples ideia de isolamento despertaram tanta reação, medo e estranhamento no público. Uma rápida análise na internet mostra que nem memes foram feitos em torno desses personagens. A maioria parecia atônita. A solidão voluntária choca.
Impossível não lembrar do paradoxo apontado por um personagem de um conto do meu amigo Pancho Gonzalez, para quem era insustentável uma sociedade (a ocidental) ter produzido um verdadeiro império de filósofos que, com poucas exceções, alertam para a necessidade de isolar-se para conhecer-se, mas que se sente horrorizada com a solidão. Por essa perspectiva, é compreensível que a história dos ermitões tenha despertado tanto horror no público: boa parte das pessoas não consegue ficar poucas horas em silêncio, sozinhas, com seus próprios pensamentos, quanto mais passar uma vida dessa maneira.
Lembrei-me, nesse ínterim, de uma crônica do Ferreira Gullar, onde ele reclamava de um Rio de Janeiro que ficava propositadamente mais barulhento, com os espaços de convívio social elevando os decibéis de qualquer equipamento sonoro disponível. Perspicaz, Gullar concluiu que ninguém se sentia confortável com o silêncio. “E, como o silêncio induz a pensar, tendo a concluir que essa barulheira deliberada é para fugir à reflexão. Trata-se de uma sociedade que prefere se atordoar a se conhecer”, escreveu.
Mas o Gullar é apenas um exemplo para ilustrar esse silêncio e reclusão que menciono e que os eremitas encarnam tão bem. Dá para listar uma vasta bibliografia para aprofundar esse raciocínio, que vai desde Epicuro a Thoreau. É possível até mesmo demonstrar que casos radicais ou curiosos, como esses do índio e do velho japonês, podem de fato causar surpresa nas pessoas. Mas sentir tanto incômodo com a simples ideia de solidão é bastante sintomático de uma sociedade onde tudo é individualizado, mas ninguém se conhece. É fácil entender, assim, um mundo onde tantos convivem, mas poucos se suportam. Basta lembrar Schopenhauer. Como diz o filósofo, ao ficar sozinho, cada um confronta aquilo que, de fato, é. 
Segundo ele, o que torna as pessoas sociáveis é a incapacidade de suportar a solidão. E, nela, a inabilidade de suportar a si mesmo.

Texto produzido em: 25/07/2018