A crise política e econômica que o Brasil tem protagonizado atingiu em cheio um setor já combalido no país: a saúde pública. Basta, para isso, lembrar que mais de 200 hospitais filantrópicos encerraram suas atividades nos últimos dois anos. Mas, felizmente, nem tudo é caos. Há exemplos de entidades que apostam numa gestão resiliente e assertiva não só para manter a sua rotina de trabalho, mas até mesmo para aprimorá-la, seguindo na contramão da crise. É o caso, em Campos, da Fundação Benedito Pereira Nunes (FBPN).
Para falar dela, o Mania de Saúde entrevistou o presidente Dr. Márcio Sidney Pessanha de Souza, que fez uma análise importante sobre o trabalho da FBPN e como ela tem buscado mudar, para melhor, a realidade da saúde no município. Confira.
Mania de Saúde – Como tem sido gerir a FBPN?
Dr. Márcio Sidney –
A FBPN é a mantenedora/proprietária da Faculdade de Medicina de Campos (FMC) e do Hospital Escola Álvaro Alvim (HEAA). São instituições que, aparentemente, se completam, mas que têm atividades operacionais bastante distintas. Isso exige muito planejamento, ainda mais nesse cenário de dificuldades financeiras no país. Posso me reportar, como exemplo, ao HEAA, um hospital filantrópico, sem fins lucrativos, que atende quase na integralidade o ente público. É preciso ser um pouco mágico para, nesse momento de crise, superar os obstáculos e ainda ter resultados de gestão. Mas estamos conseguindo não só manter, como, também, aprimorar a qualidade dos serviços oferecidos no hospital.
Mania de Saúde – Como tem sido esse trabalho?
Dr. Márcio Sidney –
O HEAA possui três características importantes. Primeiro que ele tem um valor social enorme, na medida em que emprega 471 funcionários diretos e outros tantos indiretos. Além disso, é o hospital-escola da FMC, tendo, assim, uma relevância gigantesca para o ensino, porque ajuda a formar médicos e farmacêuticos, além de outros profissionais da área da saúde que fazem estágio ali, como nutricionistas, psicólogos e assistentes sociais. Recentemente, inclusive, firmamos um convênio com a faculdade de odontologia para que os alunos também façam estágio no hospital. Já a terceira e a mais importante das atribuições é oferecer uma saúde de qualidade, em segmentos essenciais para a população, como o tratamento do câncer, por exemplo. O HEAA conta com a oncologia clínica, a parte cirúrgica, a quimioterapia e a radioterapia, oferecendo, assim, todas as alternativas para tratar o paciente com câncer, em serviço de altíssima qualidade, sob a batuta do Dr. Frederico Barbosa, que é uma referência na área. 
Outro exemplo é o serviço de hemodinâmica e cirurgia cardíaca, já que, junto com o câncer, as doenças cardiovasculares estão entre as que mais matam no mundo. O HEAA também possui um serviço de ponta nessa área, recebendo, inclusive, pacientes de fora para fazer tratamentos, como ocorre na oncologia. Existe ainda o atendimento em clínica médica, em ginecologia, entre muitos outros segmentos, porque há um ambulatório com diversas especialidades no hospital. Tenho certeza de que Campos não pode de forma alguma prescindir da existência do HEAA, pois há serviços prestados ali que os hospitais próprios do governo não têm. A reputação e a procura pelos nossos serviços, aliás, já extrapolaram os limites do município, pois temos recebido muitos pacientes vindos da região metropolitana da capital, como Duque de Caxias, Nova Iguaçu, Niterói e São Gonçalo, que não estão encontrando espaço para fazer os tratamentos em suas respectivas cidades. Sem dizer que há, também, o Centro de Infertilidade e Medicina Fetal do Norte Fluminense, o único do interior do estado do Rio, com toda a excelência exigida pelo setor. Esses serviços exemplificam a relevância do HEAA para a região. 
Mania de Saúde – Quais os planos para o hospital?
Dr. Márcio Sidney –
Nós, como administradores, temos que refinar ao máximo os mecanismos de gestão para obter resultados sempre positivos. Isso inclui a qualificação do hospital para oferecer um serviço cada vez melhor. É o que a gente está implementando, inclusive, buscando a certificação ONA. Ela está dentro do planejamento estratégico para 2018. Trata-se de uma chancela da Organização Nacional de Acreditação (ONA) que certifica a qualidade dos serviços de saúde. Ou seja: estamos implementando medidas no HEAA visando a excelência em todos os seus níveis. E pode ter certeza de que, mesmo atendendo 90% dos pacientes pelo SUS, isso é possível. Tem que ter gestão.
Mania de Saúde – Por falar nisso, o Sr. atuou muito tempo na iniciativa privada. Como é, agora, gerir um bem público?
Dr. Márcio Sidney
– A responsabilidade, para mim, é a mesma. Acho interessante falar nesse assunto porque existe, em muitas pessoas, a ideia de que, se é de origem pública, é de má qualidade. A gente precisa erradicar esse conceito. Até porque, no setor público, nada é dado. Tudo advém dos impostos que pagamos. Então, por que essa ideia de que o serviço público tem que ser de má qualidade ou, para melhorar, só privatizando? É uma concepção equivocada. A gente tem é que buscar a excelência. 90% do movimento do HEAA, por exemplo, é do SUS. E estamos pleiteando o mesmo certificado de qualidade que se busca em hospitais privados. Isso mostra que a excelência tem que estar presente no serviço público também, em benefício da população.

Texto produzido em: 06/12/2017