Nelson Rodrigues dizia que o subdesenvolvimento não era um improviso, mas uma obra de séculos. O dramaturgo tinha razão. O atraso cultural em nosso país, por exemplo, nunca foi uma contingência, um acidente, mas um desejo que vinha desde a Colônia. A Coroa Portuguesa jamais quis que o povo lesse ou aprendesse. 
Tanto que, quando a corte chegou ao Brasil, em 1808, era proibida toda e qualquer atividade de imprensa – fosse a publicação de jornais, livros ou panfletos. O imperador não queria que o povo tivesse acesso ao conhecimento para que não desenvolvesse senso crítico, o que colocaria em risco a relação entre a metrópole e a colônia. 
Já a América espanhola era diferente: ela vinha criando universidades desde 1538, uma atrás da outra, fomentando a evolução cultural ao longo dos séculos. O Brasil só chegou a esse patamar em 1921, com a Universidade do Rio de Janeiro, criada às pressas para a visita do rei da Bélgica, como se a chegada de um gringo ilustre fosse a única razão plausível para o governo investir em universidades. 
O mal que esse passado draconiano nos legou é imenso e reverbera ainda hoje. Basta observar um programa recente do jornalista Pedro Bial, onde ele entrevistou editores de duas grandes casas de livros no Brasil. Se fosse outro o país, esses profissionais estariam discutindo novas formas literárias, autores de vanguarda etc., mas aqui, na TV, só clamavam por uma coisa: que o país investisse mais em educação. Para ontem.
Esses exemplos mostram como a literatura no Brasil parece vingar única e exclusivamente por força dos próprios brasileiros, jamais pela vontade de seus governantes. A maioria dos nossos grandes escritores, hoje cultuados com razão, sofreu na pele a censura ou, ao menos, a má vontade dessa estatal secular de ignorância. Mas ainda assim conseguiram fazer grandes obras-primas em meio a uma realidade tão adversa. Graciliano Ramos que o diga.
Nesse contexto, eventos como bienais, feiras e festas literárias são mecanismos de extrema relevância para o país e jamais podem ser vistos como acessórios, mas como peças fundamentais para a (re) construção de nossa identidade cultural. Por isso nos alegramos tanto com a notícia da FLIT, a Festa Literária de Itaperuna, que acontece no dia 14 deste mês. 
É bonito notar como a chegada da FLIT motivou inúmeras pessoas a adentrarem a obra de ninguém menos do que Guimarães Rosa, autor homenageado desta primeira edição. Para se ter uma ideia, a UniRedentor, patrocinadora da FLIT, já vem trabalhando os livros do escritor mineiro junto aos seus alunos, que estão fazendo diversos (e aprofundados) projetos acerca do ambiente roseano. Ver o autor de “Grande Sertão: Veredas” sendo tratado com tanto amor à leitura, e não como mera obrigação de currículo, faz prenunciar que a FLIT certamente fará uma diferença enorme na cidade. 
Deixo aqui, então, meus parabéns à Academia Itaperuna de Letras, na pessoa da presidente Luciana Pessanha Pires, curadora da FLIT, bem como à UniRedentor, por demonstrar mais uma vez a importância da iniciativa privada que entende o valor dos livros e da leitura como forma de suprir essa carência tão grande em nosso meio social, além de todos os demais participantes, que avivam a máxima eterna de Monteiro Lobato: “um país se faz com homens e livros”.

Texto produzido em: 27/08/2018