Parece-me do alto da minha ousadia de velho gagá, que o notável James Freeman Clarke se equivocou ao dizer que os políticos “pensam nas próximas eleições e os estadistas nas próximas gerações”. Na verdade, são os politiqueiros e não os políticos, que esquecem do amanhã. Sim, o infame grupo dos politiqueiros extremamente apegado ao dinheiro para se perpetuar no poder e desfrutar criminosamente uma vida de nababos.
O assunto de que estou tratando neste texto me veio à cachola, porque me perguntaram as razões pelas quais odeio os políticos. E a indagação ocorreu de uma leitora que, certamente, não captou o meu recado ao escrever o artigo A Vingança da Natureza. Parecendo-me oportuno dizer que a respondi afirmando que devoto o maior respeito aos políticos, pois vejo a política como ciência, técnica e arte do bem comum. Sendo digno de registro que, no artigo A Vingança da Natureza, cheguei a exaltar os políticos José Bonifácio de Andrade e Silva e Moacyr Gomes de Azevedo. É evidente que abomino os politiqueiros, sobretudo os responsáveis pelos cataclismos que nos assolam. Mas não cometo a imbecilidade de generalizar, pois há políticos de vida ilibada e que alcançaram a condição de governantes. Deixo, assim, para as autoridades competentes identificar e punir devidamente os maus políticos.      
Sou, na verdade, um panegirista do político autêntico, aquele que traz na alma o estadista em potencial. Daí a minha admiração por Nilo Peçanha que, quando jovem venceu todos os obstáculos de mestiço por amor ao Brasil e à sua gente. Amor tão intenso, que chegava a não levar em consideração os seus conterrâneos de nariz em pé. Aquelas figuras execráveis, que proclamavam jamais votar no mulatinho do distrito campista de Morro do Coco. O caboclo, que teve o topete, o atrevimento de enveredar pelos caminhos da política. Espantosamente, Nilo Peçanha ignorou o fato de não ser bem votado em sua Campos dos Goytacazes, jamais dela se esquecendo carinhosamente, bem como de todas as camadas sociais que a integravam.
Como bem assinalou o professor Hevilmar Carneiro Rangel, o notável político e estadista Nilo Peçanha entregou-se com denodo à causa da Abolição dos Escravos e ao fervor republicano. Daí ter se tornado exemplo de gestor público a implementar “programas audaciosos na educação, agricultura, infraestrutura, industrialização, comunicações, saneamento básico, apoio aos indígenas e incentivo às mulheres”. Em suma: o estadista já estava desenhado no cidadão, que foi “o maior, o mais completo, o mais progressista político da 1ª República”, segundo o ilustre professor acima citado. Podendo-se dizer que, em Nilo Peçanha, o estadista resplendia de antemão, antecipadamente, no rasto, nas pegadas, nos indícios luminosos deixados pelo político, em sua altaneira caminhada cívica, extremamente patriótica pelo Brasil.