Houve um tempo em que as pessoas abriam os jornais e, em vez do comentário político viciado e pessimista, se deparavam com textos como “A Borboleta Amarela”, de Rubem Braga, onde ele descrevia, comovido e maravilhado, um encontro fortuito com o pequeno inseto que lhe colorira o dia – e a vida. No meio da paisagem brasileira, tão cheia de barulho e caos, Rubem se preocupava apenas com uma simples borboleta amarela e para onde ela, afinal, dirigia seu voo. O famoso cronista até poderia brindar seus leitores com grandes arroubos opinativos, como é comum na nossa imprensa, mas preferia era iluminar certos gestos banais para nos lembrar, com ternura, que o nosso pequeno universo interior é sempre maior que a realidade, no fim das contas.

Tempos atrás, em uma reportagem sobre a paisagista Lota de Macedo Soares, personagem marcante da cultura brasileira, sua filha, Monica, narrava não uma cena grandiloquente da vida exuberante de Lota, a criadora do Parque do Flamengo, mas algo mais prosaico e belo. “Ela falava para mim: ‘dê muito valor ao silêncio’. Observávamos os olhinhos das corujas brilhando no escuro. Hoje, eu entendo. Ela devia viver num tormento só. Aquele era o momento em que ficava em paz, num canto cheio de corujas”.

A artista plástica Susi Sielski revelou, certa vez, algo parecido em sua família: “Meu avô Ferdinand Levi ganhou a Cruz de Ferro por seus serviços na Primeira Guerra Mundial. Na Segunda Guerra, foi deportado em 1942 de Frankfurt para um campo de concentração em Theresienstadt, onde passou quatro anos. Quando eu era pequena, ele me mostrou um monte de rosas do nosso jardim em Buenos Aires e disse, em Alemão: ‘Susi, aqui está Deus’”.

Certa vez, enquanto aguardava uma carona, uma garotinha resvalou em mim, guiando um cego pelas mãos. Ela olhava para um lado e para o outro, como se temesse perder alguém de vista. Mas eis que uma senhora veio ao encontro dos dois e a menina se alegrou: era a mãe dela, também cega. A menina uniu a mão do homem e da mulher, entrelaçou às suas e saíram os três pela rua, aos risos, enquanto ela os guiava. Não me lembro de ter reparado o rosto da menina, mas uma coisa era certa: seus olhos refletiam a vida em estado bruto.

Ferreira Gullar, citado aqui tantas vezes, contava sempre a história do seu poema “Internação”, onde relatou a esquizofrenia do seu filho, Paulo, que, no meio de um surto, “depois de meses trancado no fundo escuro de sua alma”, disse para o poeta: “pai, o vento no rosto é sonho, sabia?”.

O afeto às vezes dilui a dor não com afirmações, mas com perguntas. Dostoiévski, em “Noites Brancas”, questionava: “um momento de felicidade não seria o bastante para preencher toda uma vida?”.
Arthur Schopenhauer é pintado como pessimista. Adolfo Bioy Casares achava-o justo. Como no famoso aforismo do alemão: “cada um fugirá, suportará ou amará a solidão na proporção exata do valor da sua personalidade. Afinal, é na solidão que o indivíduo mesquinho sente toda a sua mesquinhez e o grande espírito toda sua grandeza. Numa palavra: cada um sente aquilo que é”.

“Felizes os que guardam na memória palavras de Virgílio ou de Cristo, porque estas darão luz a seus dias”. Eis um dos versos prediletos de Borges. 
Qual é o seu?

Um bom 2019 para todos nós.

Texto produzido em: 11/12/2018