Foi engraçado ver, há pouco tempo, uma entrevista em que o Mario Quintana abordava a necessidade de ler dicionários para desenvolver o olhar criativo. Me lembrei que adquiri esse costume poucos anos atrás, por mera curiosidade – e o resultado de tamanha extravagância mudou significativamente minha forma de encarar a escrita e o mundo.
Não que ler dicionários seja exatamente isso o que você está pensando agora. Nem que o objetivo venha a ser a memorização de palavras complicadas. O segredo está justamente em encará-lo de forma despretensiosa, abolindo o senso comum e todas as imagens preconcebidas que formataram nosso modo de pensar. 
Faça este exercício: imagine-se lendo o Aurélio ou o Houaiss sentado no sofá de casa. Provavelmente rirá ou não verá graça alguma nesse objeto antigo e inusual, que parece estar mais ligado a uma rotina de estudos maçante do que a leitura prazerosa de um clássico qualquer. Mas essa ideia é apenas o retrato de um senso comum – e o senso comum, como se sabe, é só um recorte da realidade, não a realidade em si mesma. 
Ainda bem que não sou o único a escarafunchar dicionários. Tenho um amigo que passou pela mesma experiência quando decidiu botar a leitura em dia. Para não perder detalhes dos livros que escolheu, ele deixou o Houaiss ao alcance da mão. Mas, em pouco tempo, estava mais afeito aos vocábulos do que os enredos dos livros de bolso. Ele tomou gosto em abrir o dicionário ao acaso e descobrir o real sentido de certas palavras. Começou a lembrar das lições sobre substantivos, adjetivos e verbos e assim foi enriquecendo o próprio vocabulário, passando a visualizar melhor o sentido de tudo o que escrevia ou falava com os outros. A experiência, que poderia ser tediosa, tornou-se lúdica.
Aliás, isso me lembra o Sr. Francisco Buarque de Hollanda citando o sérvio Milorad Pavic, autor de romances enciclopédias, para quem “a leitura dos dicionários é um traço infantil no caráter de um homem adulto”. 
A passagem está na abertura da reedição do dicionário analógico de Francisco Ferreira dos Santos Azevedo (realmente um clássico), que era objeto de devoção do pai, o historiador Sérgio Buarque de Holanda. A paixão pela obra o levou, ao longo da vida, a adquirir vários outros exemplares, que folheava nas horas mortas. “Eu corria os olhos pela minha prateleira repleta de livros gêmeos, escolhia um a esmo e o abria a bel-prazer. Então anotava num moleskine as palavras mais preciosas, a fim de esmerar o vocabulário com que eu embasbacaria as moças e esmagaria meus rivais”, escreveu.
Mas não encontrei exemplos desse tipo apenas no reino das palavras. Na área de exatas também foi possível ver o senso comum indo para o ralo e dando uma nova visão a um outro amigo, que fazia engenharia à época e vivia temendo o conteúdo da graduação, tamanha a fama de dificuldade alardeada pelos colegas. Cansado de ser guiado pela percepção dos outros, decidiu encarar os livros com espírito livre e não só absorveu melhor cada disciplina, como teve facilidade nos períodos seguintes e soube captar a essência do conhecimento que hoje emprega em uma multinacional.
Parece papo de autoajuda, mas é verdade: há muitas situações em que o senso comum traz segurança e nos protege de alguma possível frustração, mas, na maior parte das vezes, ele é essencialmente limitador e pode prejudicar bastante o exercício de sua individualidade. 
Na dúvida, confie em si mesmo. E tenha em mente que, se o objetivo em questão não der certo, ao menos fizeste um conúbio perfeito entre a independência e a volição.
E se não sabe o que isso significa, vá procurar no dicionário, ora bolas!

Texto produzido em: 27/03/2019