Quem nunca ouviu falar em fake news? Pois é. A onda de notícias falsas, propagada especialmente pelo Facebook e pelo Whatsapp (não raro atingindo os órgãos de imprensa e as autoridades em geral) parece afundar o país num mar de desconfiança e incompreensão. Mas é engraçado... o Brasil sempre foi prodigioso em maquiar o óbvio ou pintá-lo de outra maneira para, quem sabe, mascarar seus reais problemas. 
Digo isso porque notícias falsas e inverdades nunca foram um corpo estranho para nós. Quem acha que a atomização das redes sociais e a pressa que toma os órgãos de imprensa são unicamente responsáveis por isso desconhece, por exemplo, fatos centrais da nossa história, como as célebres cartas falsas atribuídas a Arthur Bernardes, publicadas em 1921 pelo Correio da Manhã. Elas desancavam o presidente Epitácio Pessoa, o Marechal Hermes da Fonseca e outras figuras do exército, além do candidato Nilo Peçanha, em termos que nenhum jornal de hoje ousaria publicar. O plano era simples: tumultuar as eleições. A presidência virou caso de perícia, como lembrou Eduardo Bueno. A celeuma criada, como registram os livros, durou meses. Se houvesse internet à época, talvez não durasse nem uma semana.
Mas o fato é que episódios como esse parecem ter se entranhado na história brasileira do século XX. Em 1937, o chamado “Plano Cohen”, por exemplo, serviu para justificar o golpe que criou a ditadura do Estado Novo. Tratava-se de um documento, divulgado pelo governo, que atribuía à Internacional Comunista um suposto plano de tomada de poder (talvez resquícios do temor da Intentona de 1935). Depois, entretanto, descobriu-se que o documento fora elaborado pelo então capitão Olímpio Mourão Filho, figura de proa do exército. O mesmo que, em 1964, daria o pontapé inicial para a deposição João Goulart, abrindo caminho para o regime. 
Um dos personagens centrais dessa época, aliás, também protagonizou um caso clássico de fake news: Carlos Lacerda. Ele deu voz à célebre “Carta Brandi”, que apresentava uma suposta comunicação do deputado argentino Antônio Jesús Brandi com Jango, em 1955, aludindo a uma possível deflagração, no Brasil, de um movimento armado de cunho sindicalista. A carta foi publicada em vários jornais da época, mas não impediram de levar JK e Jango ao poder.
De tais exemplos aos tantos outros que o país gerou, desde dossiês fantasmas até bolinhas de papel em presidenciáveis, é nítido como as fake news sempre estiveram entre nós, mesmo em grandes órgãos de imprensa. Soa estranho alardear o problema como se ele nunca houvesse existido. A diferença, hoje, talvez resida na proporção e nos objetivos. Se os casos históricos continham ideais de poder, os exemplos de hoje, em geral, são prosaicos e, muitas vezes, mera incitação de ódio ou pura imbecilidade de desocupados. Mas todos têm um elemento em comum: são facilmente desmentidos pela própria agilidade da internet (imagina se ela existisse em 1964, 1937, 1921...), pelos meios de checagem que estão surgindo e, sobretudo, pela consciência crítica do leitor, já que uma pesquisa americana, por exemplo, mostrou que quase 60% das pessoas compartilham notícias sem ler o conteúdo por inteiro ou sequer se preocupam em conflitá-la com uma ideia de veracidade. 
A bagagem cultural de cada indivíduo é, portanto, o melhor remédio para evitar qualquer tentativa de manipulação ideológica ou informativa, que sempre esteve presente no cotidiano brasileiro, em maior ou menor grau. Ingenuidade pensar o contrário. Fazer isso seria tão nocivo quanto se deixar levar por uma fake news.

Texto produzido em: 20/03/2018