A obesidade é tida hoje como um problema de saúde pública e sua prevalência, em todas as faixas etárias, vem aumentando em todo o mundo. No Brasil, dados do IBGE de 2014 mostram que 15% das crianças entre 5 e 9 anos e 25% dos adolescentes têm sobrepeso ou obesidade. Conversamos sobre o assunto com o médico e cirurgião Dr. Gustavo Cunha Rodrigues, que é membro da Federação Internacional de Cirurgia de Obesidade. Confira.
Mania de Saúde – Tem sido cada vez mais comum vermos jovens que não tiveram problemas com sobrepeso na infância desenvolverem a obesidade na adolescência. Que fatores podem contribuir para isso?
Dr. Gustavo Cunha Rodrigues –
A atividade física é um importante determinante das características físicas do adolescente. A obesidade em adolescentes resulta do desequilíbrio entre atividade reduzida e excesso de consumo de alimentos densamente calóricos. E o número de horas que um adolescente passa assistindo TV é um importante fator associado à obesidade, acarretando um aumento de 2% na prevalência da obesidade para cada hora adicional de televisão em jovens de 12 a 17 anos. 
O hábito de omitir refeições, especialmente o café da manhã, juntamente com o consumo de refeições rápidas, fazem parte do estilo de vida dos adolescentes, sendo considerados comportamentos importantes que podem contribuir para o desenvolvimento da obesidade. A maturação sexual constitui outro aspecto importante na avaliação do crescimento e desenvolvimento físico dos adolescentes, relacionando-se com o aumento de estatura e peso, desenvolvimento muscular e aumento dos depósitos de gordura em meninas. Alguns estudos têm observado uma relação entre maturação sexual precoce e obesidade em meninas. Além de todas as justificativas acima, tem que ser considerado a genética do indivíduo. Mesmo não sendo obeso na infância, ele pode evoluir com obesidade, mais tarde, até na vida adulta.
Mania de Saúde – Hoje fala-se muito sobre a aceitação do próprio corpo. Como distinguir o conhecido “gordinho saudável” da pessoa com obesidade?
Dr. Gustavo Cunha Rodrigues –
Não acho que tenhamos o “gordinho saudável”. Para mim, todo paciente com sobrepeso ou obeso não é saudável. Até pode ter os exames normais, mas em algum momento ele vai desenvolver doenças relacionadas à obesidade, como diabetes, hipertensão, “gordura no fígado”, colesterol alterado, entre outras.
Por isso o excesso de peso deve começar a ser tratado o quanto antes, com as diversas formas de tratamento que temos hoje, desde de medicações e atividade física até a Cirurgia Bariátrica.
Mania de Saúde – A ansiedade é um problema comum nessa fase da vida. Pode contribuir para a obesidade?
Dr. Gustavo Cunha Rodrigues –
Sim. O adolescente é muito ansioso, principalmente pelas modificações hormonais do organismo e por isso passa a ser muito suscetível a desenvolver a obesidade. Muitos canalizam a ansiedade para a comida, sendo uma válvula de escape para a melhora da ansiedade e com isso, quanto mais o adolescente come, mais prazer ele sente, entrando em um círculo vicioso.
Mania de Saúde –Quais são os principais danos à saúde causados pela obesidade?
Dr. Gustavo Cunha Rodrigues –
A obesidade é fator de risco para diversas doenças, como hipertensão arterial sistêmica, diabetes mellitus tipo 2, distúrbios do colesterol ou triglicerídeos, doenças cardiovasculares, insuficiência cardíaca, apneia do sono, esteatose hepática (gordura no fígado) que pode evoluir para cirrose hepática e vários tipos de câncer. Também contribuem para vários problemas ortopédicos, devido à sobrecarga de peso sobre coluna e as pernas.
Mania de Saúde –Como é feito o tratamento de obesidade nos jovens e adolescentes? 
Dr. Gustavo Cunha Rodrigues –
O tratamento é feito, inicialmente, com modificação dos hábitos alimentares e atividade física. Caso seja necessário, podemos incluir o tratamento psicológico, deixando o medicamentoso, se os anteriores falharem. A cirurgia só é indicada em casos de falha em todos os tratamentos anteriores e que tenham durado no mínimo 2 anos. Quanto à idade, ela pode ser feita de 16 a 18 anos, dependendo da autorização prévia de pais ou responsáveis e, a partir dos 18 anos, não é necessária. Uma informação importante é que a cirurgia não é indicada para todos que se encontrem obesos. É preciso preencher alguns critérios. Como falei acima, a idade mínima hoje baixou para 16 anos, o IMC (calculado pegando o peso e dividindo pela altura ao quadrado) tem que estar acima de 35kg/m2 se possuir alguma comorbidade relacionada à obesidade ou acima de 40kg/m2, independente de comorbidades.
Essas comorbidades são: Hipertensão arterial, diabetes tipo 2, colelitíase (pedra na vesícula), colesterol/triglicerídeos aumentados, apneia do sono, doenças cardiovasculares (infarto do miocárdio, angina, insuficiência cardíaca congestiva, acidente vascular cerebral, hipertensão e fibrilação atrial, cardiomiopatia dilatada, cor pulmonale e síndrome de hiperventilação), asma grave não controlada, osteoartroses, hérnias discais, refluxo gastresofagiano com indicação cirúrgica, pancreatites agudas de repetição, esteatose hepática, incontinência urinária de esforço na mulher, infertilidade masculina e feminina, disfunção erétil, síndrome dos ovários policísticos, veias varicosas e doença hemorroidária, hipertensão intracraniana idiopática, estigmatização social e depressão.

Texto produzido em: 20/04/2018