Dr. Elias Pedro Sader Neto

A magistratura é um ramo desafiador e que atrai diversas pessoas ao longo dos anos. Mas apenas uma minoria consegue atender às exigências para exercer a profissão de juiz. A fim de saber mais desse assunto, entrevistamos o Dr. Elias Pedro Sader Neto, Juiz Titular da 3ª Vara de Família da Comarca de Campos dos Goytacazes, que falou não só das particularidades da profissão para os jovens, como também dos benefícios que ela vem promovendo à sociedade. Confira.

Mania de Saúde – Como o Sr. analisa a figura do juiz hoje?

Dr. Elias Pedro Sader Neto – Vejo por dois aspectos. O primeiro é a imagem que habita o imaginário das pessoas, como se o juiz fosse aquele homem da capa preta, digamos assim. Há aquele pensamento de que a função dele é prender, como se o juiz fosse aquela figura repressora, muito austera. Acredito até que exista no imaginário popular a ideia de que o juiz é um arbitrário. Mas a função de julgar é bem diferente disso. A função de julgar é muito mais próxima do justo do que essa ideia do juiz tirano. E, na sociedade como um todo, tem havido uma espécie de desvalorização da autoridade no sentido comum, ou seja, do pai, do professor etc. As pessoas hoje têm uma dificuldade de estar debaixo de autoridades. E o juiz não escapa a isso. Até mesmo no relacionamento institucional, percebo hoje um certo desprestígio da justiça como instituição, por conta do enfraquecimento da figura de autoridade.

Mania de Saúde – E o mercado? Os jovens vêm se interessando mais pela carreira?

Dr. Elias Pedro Sader Neto – Existe a ideia de que o juiz ganha muito. Mas ela vem da divulgação pela imprensa, de um modo geral, do que a gente ganha em estado bruto. Quando se vincula o que ganha um juiz, é sempre o subsídio do ministro. E bruto. Só que, do ministro até nós, só vai diminuindo. E depois ainda desconta 27,5% do imposto de renda e 11% de previdência. Essa informação nunca é passada para a população. Dessa maneira, exceto aqueles que têm sonho de serem juízes desde a infância, há uma vontade de muitos em entrar na área em busca de status ou por achar que o salário é grande. Claro que, em relação ao que ganha a maioria dos servidores, o subsídio é bom sim, mas, se for olhar para o preparo técnico que é exigido para o indivíduo passar, talvez no mercado de trabalho ele conseguisse mais. Porém o jovem vem para a magistratura por outras razões e não tanto pelo subsídio. Ele olha a carreira pela ótica da vocação. Porque não é um cargo a se desejar muito. Tanto é que uma minoria é que procura a magistratura. Primeiro pelo nível de dificuldade da prova, que assusta um pouco. Segundo pela remuneração, que não é atrativa. O caminho estreito do concurso afasta as pessoas. Hoje sobram vagas de juízes no nosso estado, por exemplo.

Mania de Saúde – Quais os desafios de exercer a profissão?

Dr. Elias Pedro Sader Neto – O volume de trabalho. Você está em um lugar e sabe que, por mais que se esforce, continuará em déficit. Nas varas cíveis, por exemplo, o volume é muito grande. E existe o sistema de recursos. Quando você profere uma decisão, um vai estar satisfeito e o outro, não. Logo, vai ter sempre recurso, de um lado ou de outro. E pode ser que você profira uma decisão que vai desagradar a ambos. Além disso, existe no nosso país um sistema de recursos, que já avançou com o advento do agravo retido e melhorou bastante, trazendo segurança jurídica, mas ao mesmo tempo atrasa o andamento do processo até o cumprimento daquilo que foi estabelecido na sentença. Então o desafio é o volume do serviço, que é enorme.

Mania de Saúde – Como o Sr. vê o judiciário nesse contexto?

Dr. Elias Pedro Sader Neto – No passado, foi feita uma pesquisa para a população opinar qual o animal melhor representava a justiça. Ficamos sabendo que era o elefante. Mas essa ideia da justiça como animal lento, eu acho que a gente começa a vencer. Porque a justiça está se informatizando e hoje a gente tem instalações melhores do que já tivemos no passado. Com o advento do fundo especial, o tribunal dispõe de recursos próprios para materiais. Hoje temos bons fóruns nas comarcas mais distantes, bem como a cobrança do Conselho Nacional de Justiça por metas. Ou seja, a justiça tem melhorado. O problema é que, se você melhora a prestação jurisdicional, a demanda aumenta. Não existia, por exemplo, o juizado especial, que começou como de pequenas causas. Havia uma demanda reprimida porque as pessoas não tinham acesso à justiça. Então, com o advento do juizado especial, a justiça se abriu para uma infinidade de questões de baixo valor que antes eram reprimidas. Mas o judiciário tem se mexido e melhorado e isso é extremamente importante.

Texto produzido em: 18/09/2014