Por Sthevo Damaceno

Reza a cartilha dos bons modos que é deselegante um jornalista escrever em primeira pessoa. Mas este é um depoimento. Como falar de Sylvio sem trazer a público características que às vezes só se evidenciavam em nosso convívio? Como encobrir particularidades dele que explicam, em muito, o sucesso do Mania de Saúde?
É engraçado fazer esta explanação um tanto pomposa. Primeiro pela capacidade que Sylvio tinha de ser simples ao escrever a Opinião do Editor. Jamais o vi manifestar suas observações com arrogância. É um mérito. Quantos editores, no Brasil, não parecem subir em pedestais da moralidade e apontar soluções para Deus e o mundo como fossem juízes supremos?
Em vez dessa prepotência, tão comum na imprensa brasileira, Sylvio era de uma humildade impressionante em seus textos. Ele entregava uma cópia a todos da redação como se fosse um estagiário, torcendo para que corrigíssemos alguma coisa. Certa vez, pilheriei com isso e ele desbancou-me. “Não tenho capacidade de competir com vocês”. Essa aparente modéstia desconcertava-nos pela sinceridade. Por uma razão muito simples: Sylvio exaltava o talento de cada um de nós como se ele não os tivesse. Uma vez, porém, fui eu quem o desconcertei para reparar este falso julgamento. 
Ele foi à rua fazer uma matéria e voltou com um texto sobre o Martelinho de Ouro, narrado de uma forma tão simples e tão clara que ele quase caiu da cadeira quando eu disse que meu sonho era ter a linguagem daquela matéria.
Não estava mentindo. Já disse a outras pessoas que escrever de forma simples não é para qualquer um. Não sou eu quem afirma isso, mas ninguém menos que Fernando Sabino. O romancista mineiro chegava a recriminar quem via soberba quando ele abordava a dificuldade em ser claro na linguagem. “Qualquer sujeito mais ou menos letrado aprende as ideias dos outros e passa a escrever como tabelião num piscar de olhos. Mas utilizar a linguagem certa, clara e cristalina, evidenciando ideias próprias, é que faz o verdadeiro escritor. Essa, sim, é a linguagem mais importante de ser alcançada, porque orgânica e honesta”.
Não tenho dúvidas de que essa linguagem foi um dos pilares que alicerçaram o Mania de Saúde ao longo dos anos e que nós, da redação, tentamos manter da melhor forma possível: alinhar conteúdos técnicos numa escrita acessível a todos. Depois que alertei a Sylvio esta observação, ele passou a ser mais equânime nos julgamentos dos próprios textos. Até porque o retorno dos leitores e dos parceiros evidenciam há anos que o investimento no jornalismo é muito mais eficaz do que publicar artigos científicos, cuja linguagem poucos entenderiam. 
Faço este juízo público porque, para muita gente, o Mania de Saúde se consolidou somente pelo empreendedorismo nato de Sylvio, sua extraordinária capacidade de lidar com o meio publicitário, sua ousadia em buscar ser original a todo o custo, mas sempre vi sua preocupação com o entendimento do leitor ser uma das razões para o êxito do jornal. Só chegamos ao leitor por meio da linguagem.
Desde que entrei no jornal, em 2010, me preocupei com essa questão ao notar o quanto o Mania de Saúde é querido pelo público. Em todos os lugares que eu ia uniformizado, me espantava a forma como era recebido com simpatia e amizade. Nunca havia trabalhado num veículo onde só o nome do jornal abria tão facilmente as portas. Isso foi aumentando meu senso de responsabilidade. Principalmente depois que o jornal passou por uma reformulação, há alguns anos, onde se desfez toda uma equipe, da qual eu fui o único remanescente. Minha permanência deixou Sylvio comovido. Desde lá, passou a existir, entre nós, uma comunicação não-verbal que parecia sempre nos remeter a essa época, como se fôssemos sobreviventes de uma turbulência que só nós dois e Andréa poderíamos entender. Mesmo com as desavenças que por ventura tínhamos, logo conciliava-nos um desejo maior: o de nos alegrar ao ver o jornal transformando a vida dos leitores e dos anunciantes para melhor.
Isso me fez lembrar um dia em que ele me flagrou, tarde da noite, na redação. Era uma sexta-feira. Ele se preparava para ir embora quando viu que eu ainda estava no prédio. Parou atrás de mim e viu que eu continuava ali lendo os textos do mês, sílaba por sílaba, tentando evitar qualquer deslize. Ele sorriu e desabafou: “Engraçado isso, meu amigo. Na faculdade, quando fazíamos algum jornalzinho de laboratório, todos queriam ser editor, só pelo status. Mas quando chegava a hora de fechar o jornal, de paginar as matérias, de dar corpo a uma edição, de levar ao público a mensagem alheia, os tais editores fugiam da raia... Era só ver o trabalhão que dava para esquecerem o desejo de ser ‘editor’”.
Essa história sempre me vem à cabeça quando analiso o jornal nas revisões que faço, desde que Sylvio me promoveu a editor assistente, me intimando a ser o futuro editor quando ele não estivesse mais entre nós. Esse assunto, inclusive, se tornou constante depois de sua doença, o que me incomodava, já que nunca me importei com cargos e, principalmente, sempre acreditei na sua superação.
Quem conheceu Sylvio sabia não só de sua força em enfrentar adversidades, mas de sua própria sede de saborear a vida, de lidar com pessoas, de ser útil a alguém. Ele uma vez riu bastante quando, num fechamento de edição, tarde de noite, aparentava uma disposição quase atlética, enquanto eu, 42 anos mais novo, me sentia um verdadeiro ancião, tamanho o cansaço. Por isso não acreditei quando nosso diagramador, Vinicius Mascarenhas, me deu a notícia na manhã do dia 02 de abril: “Seu Sylvio faleceu”. Como acreditar?
Fui para o jornal e logo pipocaram as ligações. Imprensa, amigos, parceiros, clientes, leitores, todos ligavam pedindo notícias, dando pêsames. Na internet surgiam os lamentos, as reportagens, os obituários. Acompanhei tudo isso, mecanicamente. Até hoje, confesso, a ficha não caiu. Sylvio falou comigo pela última vez, antes de ir a São Paulo, com a tranquilidade esperançosa que lhe era peculiar. Eu também sequer cogitava qualquer risco em seu procedimento. Já preparava até alguns assuntos para tratar com ele quando voltasse. Mas ele se foi e não se despediu. 
Manuel Bandeira, quando da morte de Mário de Andrade, também confessou não sentir que Mário tinha morrido pelo simples fato dele não ter se despedido. Tenho essa mesma sensação com Sylvio. Ele não se despediu. Talvez por isso a comoção que sua morte gerou na cidade e nas redes sociais explique sua grandeza. Não foi ele que se exilou. Nós é que nos exilamos de sua presença para ver sua real dimensão como homem, como empresário, como jornalista, com todas suas qualidades e seus defeitos, mas sempre revelando uma intenção que nunca escondia: ser útil a alguém.
Na missa em sua homenagem, sua esposa, Andréa, nossa diretora, distribuiu flores amarelas e depois nos explicou que este era um gesto típico de Sylvio. Elas simbolizavam amizade e fraternidade, duas palavras que ele sempre admirou e proferiu, sobretudo depois de uma visita à Aparecida do Norte, que Sylvio comovidamente fez por minha influência (quem sou eu...), chegando a declarar que fui o responsável por reavivar sua fé, que andava combalida, segundo ele.
Quando Andréa contou a história das flores amarelas, logo me lembrei que, apesar de ter sido uma das pessoas que mais conversaram com Sylvio nos últimos anos, sobre todos os assuntos possíveis, jamais tratei de poesia com ele, ainda que de forma despretensiosa. Mas cabe agora redimir-me com os versos de Ivan Junqueira, que se remetem diretamente às flores fraternais e amareladas pelo tempo, também não deixam de iluminar a memória do menino da rua João Pessoa que, hoje, espera a tantos para um abraço no lado de lá, quando assim Deus o quiser. 
Descanse em paz, companheiro...

Atrás daquela montanha
tem uma flor amarela;
dentro da flor amarela,
o menino que você era.

Porém, se atrás daquela
montanha não houver
a tal flor amarela,
o importante é acreditar
que atrás de outra montanha
tenha uma flor amarela
com o menino que você era
guardado dentro dela.

Campos, 20/05/2016