Michel de Montaigne é o aristocrata francês que virou a filosofia de cabeça para baixo ao escrever o seu tão celebrado Essais (Ensaios), lá pelos idos de 1580, quando o Brasil ainda engatinhava como civilização. Montaigne se distinguia por, entre outras coisas, igualar os homens e os animais num tempo em que essa ideia era praticamente uma heresia. “Temos que reconhecer nossas semelhanças com os bichos da natureza”, dizia ele. Mas por que?
Porque, ao observá-los, Montaigne enxergou mais sabedoria no reino animal do que na fauna humana – duas expressões, aliás, que o instigariam... Mas o caso é que os animais, segundo o francês, ficam bem mais à vontade com o próprio corpo, sem ter nenhum dos constrangimentos ou pudores que nós, humanos, temos. E Montaigne, como lembra Alain de Botton, não fazia essa comparação para nos diminuir, mas para que nos aceitássemos melhor, lidássemos de maneira mais saudável com a nossa própria natureza. “É uma ideia muito simples. E uma ideia não precisa ser complexa para ser verdadeira”.
Arthur Schopenhauer, o grande filósofo alemão, é outro que adorava a fauna. Tanto que é considerado o precursor da ética animal. Ele achava que a compaixão pelos bichos está intimamente ligada à bondade de caráter. “Quem é cruel com os animais não pode ser um bom homem”, escreveu ele, sem saber que tal pensamento iria fundamentar várias decisões jurídicas mundo afora depois de sua morte. 
Schopenhauer, entretanto, não pregava apenas a solidariedade animal. Ele achava que, todos os dias, devíamos aprender algo com os bichos, tirando lições sobre a bondade humana, a naturalidade da morte e até mesmo sobre a essência da paixão, sentimento que, para o filósofo, estaria ligado mais à necessidade biológica de reproduzir a espécie do que à mera ideia de felicidade, o que explicaria a tristeza trágica das paixões irrealizadas. “Bastaria ser feliz com outra coisa para esquecer a paixão”, provocava ele.
Schopenhauer chegou a nutrir um grande interesse por animais exóticos, como toupeiras, porcos espinhos e suricatos, pela maneira como eles se reproduziam e viviam, ainda que sofrendo as maiores adversidades. Segundo ele, eram bichos de natureza precária, sem muitos atributos, diferente de um grande predador, por exemplo, que tinha um corpo preparado para a vida selvagem. Essa carência, para Schopenhauer, não levava os bichos a uma vida de infortúnio. Os animais, mesmo sendo exóticos, cumpriam sua vida seguindo os instintos, sem se importar com a dor.
Gosto de pensar nesses filósofos quando leio notícias de maus tratos animais. Mais ainda quando observo meus dois porquinhos da índia, Elvis e Matilda, duas criaturinhas tão sábias que, decerto, encantariam Montaigne e Schopenhauer. Ambos gostariam dos bichinhos: eles se limpam se nós os tocamos, dormem na hora certa, manifestam alegria quando recebem comida ou carinho, agradecem quando satisfeitos (esfregando o focinho em nossas mãos) e ainda ficam em estado alerta caso estejamos tristes. 
Se observarmos bem, como faziam os filósofos, os bichos são bons professores. Respeitam o que a natureza exige deles. Não fazem nada além do que seus corpos exigem. Nos lembram gestos simples que às vezes deixamos de lado, como a gentileza.
Comportamentos assim fizeram Montaigne e Schopenhauer exaltarem o valor da compaixão. Eles viam, nos bichos, um grande exemplo de humanidade, em contraponto ao homem, este sim muitas vezes desumano e tão pouco racional consigo mesmo e com os outros. Não é uma lição?

Texto produzido em: 20/07/2017