Eis que chego para comprar um livro e não encontro mais meu amigo Zé Maria. Descubro que ele, felizmente, se aposentou. Trabalhar como livreiro no Brasil não é fácil. Ainda mais em um cenário intelectual marcado por tanta polaridade e falta de leitura. Este era, inclusive, um dos temas que mais conversava com Zé, na livraria. Em suas posições, via-se um homem apaixonado pelo Brasil, mas que, como tantos, decepcionara-se de maneira profunda com o país. 
Se esse sentimento já é compreensível em qualquer cidadão brasileiro, fica ainda mais latente em quem, na juventude, vendia livros de diversos autores que lutaram para firmar nossa identidade e que hoje são deformados pela miopia ideológica dos nossos tempos. Dias desses, ouvi um sujeito dizer-se nada interessado por Graciliano Ramos, devido ao que leu sobre comunismo. Acho que a caverna eternizada por Platão é maior do que imagina a nossa vã filosofia...
Mas o engraçado é que, pouco tempo depois, recebi uma mensagem curiosa de outro amigo, hoje economista e funcionário de um grande banco. Ele lamentava a dificuldade que tinha de escrever seu projeto de mestrado e, também, os relatórios da empresa, pois a rotina acabou o impedindo de se dedicar mais à literatura, como fazia na juventude. 
Naquele tempo, o texto dele era impecável: a leitura assídua dos grandes poetas e escritores dava-lhe um domínio singular do pensamento e de como transmiti-lo com eficácia, seja pela riqueza das metáforas ou mesmo pelo uso de hipérboles – isso para não falar do próprio senso de estilo, que tanto preocupa estudantes, advogados, jornalistas e demais profissionais que sobrevivem do verbo.
Apontei-lhe, então, o óbvio: leia e releia os melhores. Foi o que ele fez. Bastou o amigo retomar os autores prediletos para transformar-se completamente: mudou o texto do mestrado, aprimorou toda sua linha de pensamento e logo exibiu uma destreza verbal e intelectual maior do que aquela da juventude. Nem foi preciso apostar em livros de autoajuda, daqueles que mais entretém do que transformam. O leitor ávido que ele fora na adolescência solidificou habilidades que precisavam ser apenas iluminadas. 
Quando soube da aposentadoria de Zé, lembrei-me desse amigo e de como a trajetória intelectual/profissional de qualquer pessoa é construída por centenas de tijolos que vão se avolumando pouco a pouco, livro a livro, ano a ano. Pessoas como Zé contribuem, em muito, para colocarmos esses tijolos no lugar certo, mesmo que, às vezes, nem percebam isso, presos em que estamos às conversas do dia a dia.
Mas qualquer leitor, seja de literatura convencional ou técnica/específica, conhece um sem número de Zés que nos auxiliam, cotidianamente, a avançar nessa construção infinita do saber, seja indicando algum título aqui e ali, seja compartilhando suas experiências nessa área que, infelizmente, atrai tão poucos interessados. 
E quando livreiros como ele se retiram de cena, paira, sobre nós, a responsabilidade de também auxiliar a outros nesse processo, nem que seja apenas para oferecer um pouco mais de cor a essa terra que García Márquez descreveu, certa vez, como “caos telúrico”. 
Do contrário, é melhor fecharmos a caverna platônica definitivamente e, assim, nos contentarmos com os fantasmas da nossa própria sombra.

Texto produzido em: 20/04/2018