Encontrar um grande poeta é sempre uma raridade. Nos últimos 10 anos, tive a sorte de conhecer alguns deles, embora tenha criado um imenso talento para perdê-los de vista. É o caso do maranhense Ferreira Gullar.
Homenageado há poucas semanas pelo projeto cultural Fronteiras do Pensamento, que lembrou a passagem de seu aniversário, Gullar foi, para muitos dos anos 1990 e 2000, aquilo que Drummond simbolizou para os jovens de duas ou três décadas antes: um poeta maior, um indivíduo capaz de decifrar a existência sem fazer muito esforço e ainda oferecer beleza em forma de versos. 
Gullar ficou bastante conhecido do grande público ao ser eleito para a ABL e por frases como “a arte existe porque a vida não basta” ou “não quero ter razão, quero ser feliz”, que estampam hoje canecas e para-choques de caminhão. Mas sua marca mais profunda foi deixada bem antes, por meio de livros como “A luta corporal”, “Dentro da noite veloz” e “Poema Sujo”, que até hoje reverberam na vida de tantos leitores pelo alto grau de inventividade.
Mesmo sendo um deles, acabei desencontrando do poeta em todas as suas vindas a Campos, onde ele dava palestras com uma certa frequência. A solução era procurá-lo no Rio de Janeiro. Era lá que o maranhense recebia leitores, estudantes e jornalistas, que podiam abordar sua trajetória com mais profundidade, sem a correria de uma fila de autógrafos. 
A morte repentina de Gullar, no entanto, impediu o projeto. Uma troca de e-mails não bastou para que este se concretizasse. O poeta partiu em 2016, vítima de pneumonia, anos depois de ganhar o Prêmio Machado de Assis, o Camões e o fardão da ABL, deixando um vazio enorme em nosso já combalido cenário cultural.
Pelo menos ficaram os seus textos, que melhoram este mundo banal e delirante, “onde se torna cada dia mais forte a necessidade de despertar o que há de mais humano no próprio homem”. 
“A poesia é capaz disso”, escreveu ele. “E pode, de repente, iluminar uma vida inteira”.

Texto produzido en: 25/09/2018