Ter o corpo sarado e a pele bonita é o desejo de inúmeras mulheres. Boa parte delas, no entanto, vem perseguindo esse objetivo de maneira inadequada. Em vez de introduzirem uma rotina de reeducação alimentar e de atividade física, por exemplo, muitas têm buscado os “chips da beleza”, que tanto povoam o mundo das famosas. O que essas mulheres desconhecem é que os chips, na verdade, são implantes hormonais – e só podem ser utilizados para fins terapêuticos, a ponto de ser proibido pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) como método estético.
Para abordar o assunto, o Mania de Saúde entrevistou a médica ginecologista e obstetra Dra. Rachel Tavares, especializada em ginecologia endócrina, infertilidade, reprodução humana, gestação de alto risco, ultrassonografia e ultrassonografia 3D/4D. Ela demonstrou a finalidade do tratamento com implantes hormonais. “Eles são indicados exclusivamente para fins terapêuticos. Os principais casos são: reposição hormonal no climatério ou na menopausa, tratamento de endometriose para controle das dores, sangramento uterino irregular, cólicas menstruais intensas e TPM. Os implantes hormonais auxiliam muito as mulheres acima de 40 anos, que não têm doença cardiovascular ativa, nem história de trombose ou de câncer de mama, além de ser indicado também para jovens, que podem utilizar em caso de irregularidade na menstruação ou síndrome do ovário policístico. Mulheres que não querem engravidar também podem fazer uso dos implantes. Mas, em todos os casos, é preciso saber as reais indicações”, diz Dra. Rachel.
Ela conta como os implantes hormonais são utilizados. “Tratam-se de pequenos tubinhos flexíveis, com cerca de 4 ou 5 cm, implantados sob a pele, na via subcutânea, por meio de anestesia local. Tudo é feito de forma indolor e no próprio consultório. Esses tubinhos trazem hormônios como estrogênio, testosterona, progesterona e eles vão sendo liberados aos poucos, direto na corrente sanguínea, todos os dias, durante seis meses ou um ano. É possível, inclusive, utilizar um tipo de hormônio apenas ou mais hormônios associados. Depende do tratamento. E a maioria deles são bioidênticos ao nosso organismo, ou seja, se assemelham aos que são produzidos no corpo. Por isso eles são tão indicados, mas em pacientes que realmente precisam repor esse hormônio”, afirma Dra. Rachel, que faz a colocação dos implantes em seu consultório quando há indicação e após avaliação criteriosa da paciente.
A médica lembra que o método é uma alternativa à reposição via oral ou transdérmica (em gel), que às vezes incomodam as mulheres. “Há pacientes que possuem problemas digestivos e não se sentem bem tomando o remédio. O mesmo pode acontecer com o gel, que precisa ser aplicado diariamente, mas gera variação hormonal. Ele tem um pico em um determinado momento e depois a quantidade diminui. Já os implantes hormonais agem de forma distinta. Os hormônios caem direto na corrente sanguínea e isso torna o tratamento mais preciso e menos incômodo ao paciente. Eles são mais bioidênticos, então, têm menos efeito colateral. São tubinhos bem pequenos, feitos de silicone, totalmente hipoalergênicos, não dão alergia, nem infecção e são invisíveis, podendo ser colocados em qualquer parte do corpo. Geralmente, na região do braço, no abdômen ou no glúteo, onde é mais comum”.
Mas em que momento o conceito de implante hormonal passou a ser distorcido pelo público? Dra. Rachel explica. “Esses tratamentos melhoram a saúde dos pacientes e acabam gerando alguns efeitos secundários. Eles dão mais disposição, aumentam a massa magra, melhoram a pele, o cabelo e muitas mulheres acabaram procurando alguns profissionais de olho nesse objetivo. Mas em hipótese nenhuma os implantes podem ser utilizados para esse fim. Tratam-se de hormônios! A gente só pode dar hormônio a uma pessoa que, de fato, necessita dele. Se for utilizado em atleta, por exemplo, é doping”, alerta a ginecologista. “Existe uma série de efeitos colaterais que nunca podem ser desconsiderados. Há risco de queda de cabelo, aumento da oleosidade da pele, acne, eventos tromboembólicos e até piora da doença cardiovascular em alguns casos. Nas mulheres, pode aumentar o timbre da voz, deixando-a masculinizada, entre outros problemas. Os chamados ‘chips da beleza’, em geral, são implantes hormonais de gestrinona, indicados para tratar endometriose. É um excelente medicamento para isso. Só que, por ter efeito androgênico semelhante ao da testosterona, ele aumenta massa magra, diminui celulite, dá mais ânimo, então, as famosas e algumas mulheres, inclusive adolescentes na academia, começaram a utilizá-lo como ‘chip da beleza’. Mas é proibido pelo CFM usar esses implantes com objetivo estético. Afinal, eles não são isentos de complicação, muito pelo contrário. É preciso orientar bem o uso dessas medicações, pois o implante hormonal é mais que um chip da beleza. Eles só devem ser utilizados com a devida indicação terapêutica. Tanto que exigem uma consulta criteriosa e uma série de exames antes do tratamento. Os hormônios devem, portanto, ser vistos como aliados e não como vilões capazes de comprometer a saúde dos pacientes”.

Texto produzido em: 16/04/2018