Há poucos dias, testemunhei uma conversa no mínimo curiosa entre dois amigos meus. Eles comentavam a necessidade de conhecimento para obter o máximo de cultura e, assim, se situar melhor no mundo. Fiquei esperando os dois mencionarem os autores que, por ventura, estariam lendo para atingir esse propósito. Mas, para a minha surpresa, ambos não se referiram a livro algum. Os dois só falavam em palestrantes e youtubers como grandes intelectuais dos nossos tempos.
Pensei em inverter a conversa para indicar alguns filósofos, poetas e escritores de verdade, mas preferi respeitar o colóquio deles. Pedi aos amigos que me falassem desses tais youtubers. Fiz uma pesquisa rápida no celular com os nomes que me deram e, agora para surpresa deles, um dos “influenciadores digitais” recomendou ao público que parasse um pouco de se guiar pelo YouTube e fosse ler... livros. 
Eu ia ralhar com os amigos, mas preferi deixar para lá. Enquanto debatiam, tirei da bolsa o meu Dante e fui reler alguns versos traduzidos da Divina Comédia pelo Italo Eugenio Mauro, na edição publicada pela Editora 34. O Italo, aliás, tem uma história curiosíssima com esse livro. Livro não, esse monumento da literatura ocidental! 
Quando o elogiavam como poeta, por exemplo, Manuel Bandeira erguia as mãos e exclamava: “Grande é Dante! Grande é Dante!”. Jorge Luis Borges dizia que a Divina Comédia era o ápice da literatura e das literaturas. “O conhecimento dessa obra é a mais inesgotável felicidade que a arte pode oferecer”, escreveu o mestre argentino.
Bem, o caso é que o Italo foi um paulistano totalmente distante do mundo editorial e dos círculos literários. Chega a ser estranho pensar que, diante de tantas traduções clássicas de Dante, feitas por eruditos de diversos matizes, a mais celebrada seja justamente a de Italo, que trabalhou a vida toda em um escritório de engenharia e arquitetura, depois de se especializar em cálculo. 
Mas é fácil desvendar o mistério. Italo era filho de um cirurgião italiano que, durante a Primeira Guerra, voltou para a Itália, a fim de se alistar como médico. E, nas horas vagas, sempre lia a Divina Comédia. Era um hábito de família. O futuro tradutor ouvia seus pais declamando, com prazer, vários cantos dantescos, costume que ele logo adquiriu, a ponto de, ainda jovem, saber o “Inferno” de cor.
Italo se apaixonou pela “Commedia” e passou a vida inteira lendo Dante, como seus pais fizeram. Mas o desafio de traduzir a dificílima métrica dantesca (que muitos eruditos não conseguiram) veio do apoio de familiares, que perceberam o grau de intimidade de Italo com a obra e o incentivaram a fazer sua versão. Alguém que conhecia tão bem os versos de Dante decerto saberia traduzi-los.
Mesmo atarefado, Italo passou a reservar algumas horas do dia para traduzir a epopeia, numa tarefa dura, mas prazerosa, que durou mais de uma década. O resultado é que, em 1998, quase 80 anos depois do primeiro contato com Dante, Italo lançou sua tradução dos mais de 14 mil versos da Divina Comédia. Em 2000, aos noventa anos de idade, recebeu o prêmio Jabuti de literatura, grau máximo das letras nacionais.
A história de Italo dá um sabor ainda melhor a essa tradução que ora tenho em mãos. E penso, ao vê-la, no poder de intimidade da grande literatura, que solidifica suas raízes pela vida inteira, em contraste a tantos falsos saberes que somos expostos todos os dias e que somem ao espaço de algumas horas. 
Bandeira estava certo. Grande é Dante! O resto não chega nem perto do Paraíso, meus amigos.

Texto produzido em: 20/06/2018