Quem pega pela primeira vez nas mãos o livro “Em nome dos pais”, do jornalista Matheus Leitão, provavelmente não tem ideia do peso e da relevância da obra. Mas aqueles que leram reconhecem, nela, um dos grandes feitos do jornalismo brasileiro deste século. 
Não era para menos. Matheus fez, no livro, uma verdadeira radiografia da geração de seus pais (os jornalistas Marcelo Netto e Míriam Leitão), da própria história e, por meio desse itinerário familiar, diagnosticou uma visão distorcida (ou, ao menos, ofuscada) das gerações mais recentes sobre a ditadura militar brasileira.
Especializado em jornalismo investigativo e detentor dos mais importantes prêmios da área (como o Barbosa Lima Sobrinho, o Esso, o de Excelência Jornalística da Sociedade Interamericana de Imprensa e menção honrosa no Vladimir Herzog), Matheus realizou uma grande viagem ao passado, mais especificamente para 1972, no Espírito Santo, quando os pais militavam no PCdoB. Delatados por um companheiro, foram presos e torturados. Na ocasião, Míriam estava grávida de Vladimir, o primeiro filho do casal. 
Tendo contato com essa história desde pequeno (que o impressionava pela forma como afetava os pais), o jornalista foi atrás de documentos que pudessem dar mais detalhes desse passado doloroso. Depois, Matheus seguiu em busca do delator – e o encontrou, na região serrana do Espírito Santo. O relato, por si só, já tornaria o “Em nome dos pais” uma obra ímpar no jornalismo brasileiro, não fosse o fato de que Matheus empreendeu novas procuras, ouvindo outros militantes torturados (para saber deles como viam aquela época e o país de hoje) e buscando oficiais que participaram ou foram responsáveis pelas torturas. 
Nessa jornada, Matheus empreendeu outros feitos inéditos, que revelam como a ditadura é um tema delicado, que ainda precisa ser mais debatido pela sociedade brasileira. É o que ele conta nesta entrevista exclusiva.
Mania de Saúde – Há pouco tempo, na TV Globo, Silvio de Abreu alarmou o público ao revelar que, numa pesquisa feita para a minissérie “Os Dias Eram Assim”, a maioria das pessoas não tinha o menor conhecimento sobre o período ditatorial brasileiro. Você, que acaba de lançar um livro importantíssimo sobre esse período, faz esse mesmo diagnóstico? As pessoas em geral têm consciência do que houve?
Matheus Leitão –
Tenho falado em entrevistas que eu escrevo para que meus filhos não se esqueçam da história de meus pais. Digo que busco ser um elo no tempo, para que essa história não se perca. Acredito que, como grande parte das informações sobre o período militar no Brasil até hoje são mantidas em sigilo pelas Forças Armadas, isso faz com que as pessoas em geral não tenham consciência do que de fato aconteceu na época dos anos de chumbo. Já se passaram, desde a redemocratização, 32 anos, e o Brasil é um país muito jovem. Por isso é preciso jogar luz nesse assunto, por meio do diálogo. É o que tento fazer. Não busco a vingança. Mas o diálogo. 
Mania de Saúde – Como está sendo a receptividade do público? Existe algum fato específico do livro que você, escrevendo, não imaginaria a repercussão? E qual foi a primeira impressão da sua família ao lê-lo?
Matheus Leitão –
Eu percebo que há um grande interesse por esse assunto. O livro tem tido uma boa receptividade e tem gerado um amplo debate do assunto, com a manifestação de todos os lados envolvidos no período da ditadura miliar. O que, a meu ver, é muito positivo. A democracia permite isso. O tema é muito polêmico e o “Em Nome dos Pais” é um livro reportagem. Eu uso as ferramentas do jornalismo investigativo para apurar os fatos, localizo documentos que comprovam acontecimentos daquela época. Eu sabia que daria alguma repercussão até pelo fato de se tratar de um assunto tabu no Brasil, um assunto que os militares não querem falar abertamente. Não é fácil falar sobre esse período no Brasil. Na minha família mesmo, cada um teve uma reação... não tive respostas fáceis nem dentro de casa.
Mania de Saúde – O Oscar Pilagallo, em resenha, fez uma comparação do seu livro com o do Marcelo Rubens Paiva, sobre as agruras dos familiares dele na ditadura, mas lembrou que o “Em nome dos pais” vai além, porque, mesmo com o tom confessional e o clima familiar, você fez um importante apanhado histórico sobre o período – algo que, recentemente, ficou evidenciado também no livro “A casa da vovó”, do Marcelo Godoy. O seu e o dele, aliás, surgiram depois dos trabalhos da Comissão Nacional da Verdade. Posto isso, como você enxerga a questão da memória sobre a ditadura hoje, especialmente num momento político onde parte do público ainda insiste em elogiá-la? O que falta para essas pessoas lerem de forma mais humana essa “página infeliz da nossa história?”.
Matheus Leitão –
Os governos democráticos nunca tiveram coragem de enfrentar esse problema. Prova disso é que o Brasil foi o último país a fazer uma Comissão da Verdade, nunca puniu nenhum torturador, permitiu que as Forças Armadas ensinassem aos jovens das escolas militares uma versão falsa dos fatos históricos. Desta forma, não contribuiu para fortalecer os valores democráticos e a rejeição ao regime ditatorial. Neste momento de crise política, econômica e da sucessão de escândalos, o risco é que se aproveite desse sentimento para defender soluções autoritárias. Precisamos mostrar que os escândalos só estão sendo desvendados porque o país tem democracia, tem imprensa livre, Ministério Público forte, Justiça independente. Como tudo na democracia, é preciso falar e convencer, incessantemente.
Mania de Saúde – Muitos têm lhe perguntado como foi o encontro com o delator dos seus pais ou com outras fontes ligadas aos militares. Mas como foi encontrar as pessoas que sofreram com a ditadura? Elas têm acolhido o livro de que maneira? 
Matheus Leitão –
É interessante a sua pergunta. Foram muito intensos esses encontros. De alguma forma precisava ser solidário a esses que sofreram no regime. E uma forma que encontrei foi ouvi-los. Eu queria entender como era viver nos Anos de Chumbo. E é importante dizer que a tortura é, sem dúvida, o olho do furacão. Mas há outras perseguições. Elas não acabavam nem quando aqueles jovens deixavam a prisão. Eu escrevi o “Em Nome dos Pais” pensando numa geração mais nova. Para que não seja esquecido o que ocorreu no Brasil ditatorial. Contudo, foi uma grata surpresa receber o retorno daqueles que foram perseguidos e viveram aquele período. Destaco dois. Uma me disse que o livro estava fiel ao que ocorreu, como se ela tivesse vendo novamente o que viveu pelos meus olhos. Outra me disse que o livro trouxe, enfim, uma espécie de redenção. Claro que me emocionei. 
Mania de Saúde – Uma das grandes dificuldades de quem não viveu aqueles tempos é a de se colocar no lugar dele. Seu livro ajuda a furar esse bloqueio. Mas, além do leitor, ele mudou você também? Alterou sua percepção sobre sua família ou sobre o Brasil?  
Matheus Leitão –
Sim. O tempo todo em que eu escrevia o livro eu fui confrontado por esse tema. A vida toda, por exemplo, eu questionei a atitude do delator de meus pais para o regime militar. Eu não conseguia entender, não queria entender. O encontro com ele me possibilitou conhecer a realidade dele naquela época e ser surpreendido com minha própria atitude em relação a ele. Me fez entender que o impacto daquele período para cada pessoa influencia diretamente na percepção de cada família e na forma de lidar com tudo o que foi vivido. Muitos perderam seus entes queridos, não tiveram e não tem até hoje informação sobre seus familiares que foram presos e torturados por militares naquela época. Não dá para achar que todos reagirão da mesma forma. Cada um viveu uma história. Meus pais foram profundamente marcados, mas sobreviveram. Outras famílias sofreram muito mais. O que mais percebo é que o Brasil não elaborou esse passado como deveria, opinião que está posta no livro.

Texto produzido em: 23/07/2017