Cena corriqueira do dia a dia. Alguém na fila do banco reclama que está com dor de cabeça. Imediatamente, vários “especialistas” de plantão começam a lançar diagnósticos. “Minha vizinha estava assim também e era falta dos óculos”, “Nesse lugar aí tenho certeza que deve pressão alta”, “Deve ser o estresse”. E o pobre paciente só vê a dor de cabeça aumentar com o excesso de informação.
A cena narrada é fictícia, mas muito comum. Ao se deparar com um quadro de cefaleia, muita gente acaba não tratando corretamente por conta de informação inadequada. Nossa reportagem conversou com o médico neurologista Dr. Pedro Bastos sobre isso. Ele afirma que, na hora de investigar as dores de cabeça, é preciso saber em que tipo elas estão classificadas, se são primárias ou secundárias.  “As dores de cabeça primárias são crônicas e recorrentes. Uma forma de compreender é a enxaqueca. Por exemplo, algumas mulheres sentem uma dor na lateral da cabeça todo mês, durante o período menstrual. Essa dor pode vir associada à náusea, vômito e intolerância à luz. No mês seguinte, ela vai sentir a mesma coisa. São cefaleias recorrentes. Geralmente, nas dores de cabeça secundárias, o paciente afirma que nunca sentiu uma dor como aquela, que pode vir com febre, deixando-o prostrado, alterando a visão, numa região diferente. Ou então que respondeu mal ao analgésico que costuma funcionar com aquela pessoa. Normalmente uma dor de cabeça muito intensa, que já começa muito forte, aponta para alguma causa vascular, como o rompimento de um aneurisma, uma trombose venosa cerebral, um AVC. A dor de cabeça que começa mais suave e ao longo dos dias, semanas e meses vai crescendo, já direciona para alguma coisa expandindo dentro do crânio, como um tumor ou até mesmo um aneurisma que pode aumentar. Existem dores de cabeças que são um pouco mais rápidas, que estão associadas a outros sintomas como febre, mal-estar, dor no corpo, que normalmente apontam para causas infecciosas como sinusite, otite, meningite. O quebra-cabeças da cefaleia tem essas questões. A gente costuma chamar isso de ‘bandeiras vermelhas’, porque a dor associada a esses sintomas chamam a atenção para a possibilidade de outra doença subjacente. Alguns desses sintomas direcionam o diagnóstico”, disse o médico.
A pressão alta também pode causar dor de cabeça, segundo Dr. Pedro. “A cefaleia ocasionada pela pressão alta fica no meio-termo porque o paciente já a conhece, passou por ela outras vezes. Normalmente é na região da nuca e então a pessoa já imagina que a pressão está alta, no entanto, ela é considerada uma dor de cabeça secundária”. 
O neurologista ainda afirma que o sinal de alerta para procurar um médico é quando o paciente sentir uma cefaleia atípica. “Outro sinal que chama atenção é quando é uma dor aguda, abrupta, que em poucos segundos já está no nível máximo. É importante notar também quando não responde bem a analgésicos ou vem associada a outros sintomas, com náuseas, vômitos, alteração visual, dormência, sonolência, febre, manchas na pele, sudorese”.
É comum, quando nos queixamos de dor de cabeça, alguém logo perguntar: “como estão os seus óculos?”, a exemplo da cena descrita no começo desta matéria. No entanto, segundo o médico, a questão visual não é um fator tão dominante no problema como se pensa. “Isso é muito menos comum do que se propaga por aí. A cefaleia decorrente de alteração visual é rara. A maioria das pessoas hoje que passarem por uma avaliação oftalmológica vão apontar algum grau de problema, então é difícil dizer se aquilo é a causa da dor. Por isso é importante decifrar melhor as características desta cefaleia, porque você pode estar postergando um diagnóstico possivelmente grave. Chama a atenção, nesse contexto da cefaleia, alterações da musculatura e da arquitetura óssea da face. Para se ter uma ideia, hoje existe um comitê dentro da Academia Brasileira que estuda cefaleia, uma subdivisão para as dores orofaciais, decorrentes principalmente da alteração da ATM. Atualmente, pela ansiedade, nervosismo, estresse, as pessoas acabam contraindo demais a musculatura e isso acaba gerando casos de dor crônica ou corrente, comprometendo a qualidade de vida do paciente”. 

Texto produzido em: 18/07/2017