José Maria Rangel

Além de atuar na defesa dos trabalhadores, entidade debate a polêmica na Petrobras, que continua em discussão no país.

Coordenador do Sindicato dos Petroleiros do Norte Fluminense (Sindipetro-NF) entre 2004 e 2014 e eleito coordenador da Federação Única dos Petroleiros (FUP) no ano passado, José Maria Rangel concedeu entrevista exclusiva ao Mania de Saúde e falou dos desafios sindicais, da crise na Petrobras e de outros temas relevantes para a classe trabalhadora.

Mania de Saúde – Como está sendo o desafio de coordenar a Federação Única dos Petroleiros?

José Maria Rangel – A FUP representa 15 sindicatos a nível nacional e conta com os principais sindicatos de produção de petróleo e também os de refino. É um desafio que muito me honra por toda a história da FUP. Assumi em agosto do ano passado e tenho feito algumas ações para aproximar a FUP do trabalhador, uma relação de integração entre os trabalhadores e os sindicatos. Essa aproximação é importante para ouvir os trabalhadores. Cada lugar tem sua especificidade, e queremos é abranger a todos, respeitando as individualidades de cada lugar, como de uma refinaria no Amazonas até outra no Rio Grande do Sul. Temos que falar a mesma língua para sermos ouvidos. 

Mania de Saúde – Como foi a mobilização da FUP em defesa da Petrobras em meio a operação Lava-Jato?

José Maria Rangel – Este foi o maior desafio até agora: encarar e administrar o ataque a Petrobras. Tivemos que sair em defesa da empresa. A FUP e os trabalhadores conseguiram passar bem por tudo isto, encarando os ataques de uma mídia reacionária e contrária à Petrobras. Não podemos misturar alhos com bugalhos. Quem roubou e desviou dinheiro da Petrobras deve ser punido e está sendo, outra coisa é a Petrobras como instrumento indutor do desenvolvimento do nosso país. Esta Petrobras é nossa e tem que ser preservada.

Mania de Saúde – As ações sindicais em defesa da Petrobras não podem ser confundidas com a defesa do governo?

José Maria Rangel – Só confunde quem não consegue diferenciar um do outro. O sindicato precisa saber que os trabalhadores estão em primeiro lugar. Na campanha eleitoral de 2010, o Sindipetro do Norte Fluminense interditou a primeira plataforma na história do país por questões de segurança. Aquilo causou um estardalhaço político e chegou a ser tema do debate entre os candidatos à presidência. Este é só um exemplo que comprova que a preocupação do sindicato é com os trabalhadores e não com partidos políticos.

Mania de Saúde – Os sindicatos que apoiam o Partido dos Trabalhadores acabam sofrendo “efeitos colaterais”?

José Maria Rangel – Por que os sindicatos não podem apoiar um partido e o capitalismo pode? A raiz do problema da Lava-Jato é o financiamento das campanhas eleitorais. E a gente não vê os arautos da defesa contra a corrupção falarem em reforma política para acabarem com o financiamento empresarial das campanhas. Você vê que a bancada dos movimentos sociais reduziu drasticamente no Congresso porque os empresários financiam a campanha dos seus aliados. E aí você vê a pauta do Congresso completamente contra os trabalhadores. Isto que queremos alertar a sociedade e principalmente a classe trabalhadora. 

Mania de Saúde – O momento político do país não é dos mais favoráveis à classe trabalhadora. Como a classe tem que seguir nesta briga?

José Maria Rangel – Estamos vivendo uma luta de classes. Quem está batendo panela é a classe alta, que não foi prejudicada em nada. Só que essa classe está se sentindo ameaçada porque os trabalhadores passaram a ter acesso a bens e a serviços que antes eram apenas privilégios deles. O trabalhador não pode achar que já está do lado de lá por ter acesso a bons restaurantes, por ter o carro do ano ou por viajar pelo mundo. Não estamos. Para a classe alta deste país, vamos sempre ser carimbados como classe trabalhadora e que está querendo invadir o que é deles.

Mania de Saúde – A Petrobras atravessa uma grave crise e culpam o PT...

José Maria Rangel – Uma grande inverdade é dizer que o PT quebrou a Petrobras. Os números mostram o contrário. A participação da Petrobras no PIB (Produto Interno Bruto) saltou de 2% para 13% durante os governos do PT. A Petrobras investe atualmente oito vezes mais do que investia em 2002 em pesquisa e desenvolvimento. E foi isto que fez a Petrobras alavancar, que possibilitou a descoberta do pré-sal. O que está em jogo agora é o pré-sal. As grandes descobertas de petróleo dos últimos anos estão no Brasil e são de pré-sal. A matriz energética do mundo por muitos anos ainda será o petróleo, e o petróleo é sinônimo de poder. Os ataques a Petrobras são na tentativa de criarem uma imagem de uma empresa corrupta, incompetente, na tentativa de forçarem a barra para entregarmos o nosso petróleo às empresas estrangeiras.

Mania de Saúde – O projeto da terceirização (PL 4.330) está em tramitação no Senado depois de ter sido aprovado na Câmara dos Deputados. O quanto o senhor, a FUP e os demais sindicados são contrários a tal projeto?

José Maria Rangel – Todos os indicadores (remuneração, jornada de trabalho, acidente e outros) mostram que o trabalhador terceirizado está em desvantagem. E esse projeto, que a gente chama de projeto da escravidão, escancara a terceirização no nosso país. Esse projeto vai permitir que empresas não tenham nenhum empregado. A empresa ganha a concorrência e ‘quarteiriza’ o trabalho. Os trabalhadores têm que continuar a mobilização contrária a este projeto. Os políticos são sensíveis à opinião pública e só assim poderemos ganhar essa batalha.

Texto produzido em: 20/05/2015