No primeiro dia de janeiro, enquanto ainda cumprimentava familiares para desejar um feliz 2019, meu amigo, Marcelo Garcia, me informou da morte do fotógrafo e artista plástico Carlos Filho, o famoso Cafi, que partiu na madrugada do novo ano. Ele sofreu um infarto na Praia do Arpoador, Zona Sul da cidade, onde Marcelo também estava. Apesar da triste notícia, logo fomos tomados pela memória afetiva em torno de Cafi e o Clube da Esquina, álbum que o eternizou para o mundo.
Afinal, é de Cafi as capas das duas edições do disco, o “Clube I” e o “Clube II”, bem como a do “Geraes”, “Minas” e “Milagre dos Peixes”, também do Milton, além de outros trabalhos de artistas consagrados da música brasileira. Mas foi mesmo com o Clube da Esquina que Cafi entrou para a história, após retratar duas crianças sentadas à beira da estrada, em uma típica paisagem do interior do país, que foi a escolhida para ilustrar o tão icônico álbum de 1972.
Desde lá, boa parte do público vinha acreditando que os personagens da fotografia eram, de fato, Lô Borges e Milton Nascimento, os dois líderes da obra-prima reconhecida até mesmo no exterior, por nomes como Pat Metheny, Wayne Shorter e Lyle Mays. Inclusive, virou lugar-comum encontrar estrangeiros fascinados com a música de Lô e de Milton se referindo à capa com os dois amigos aos quais a vida adulta jamais separaria…
Mas vejam vocês que, em 2012, na comemoração dos 40 anos do clube, jornalistas do Estado de Minas descobriram a real identidade dos “meninos” da capa. O autor da imagem, Cafi, havia clicado os garotos a caminho da fazenda da família de um dos letristas do grupo, Ronaldo Bastos. Os dois meninos não eram, portanto, Lô e Milton, mas José Antônio Rimes e Antônio Carlos Rosa de Oliveira, ou melhor, Tonho e Cacau, donos de uma história que emocionou até mesmo os mais antigos “clubistas” mineiros. 
O primeiro, que tinha virado encaixotador de mercadorias em um supermercado, disse que se lembrava de estar brincando em um morro de terra removida por tratores próximo a um campo de futebol quando Cafi e Ronaldo Bastos passaram dentro de um fusca e interagiram com eles, até tirarem a tão famosa fotografia. Tonho, entretanto, nunca tomou conhecimento da capa do disco, que há décadas levava sua imagem para o mundo. Um pouco diferente de Cacau, que trabalha como jardineiro e se deparou com o disco anos atrás, em uma loja, onde logo reconheceu seu rosto de menino, embora não se lembrasse do encontro com Cafi.  
O fato é que Tonho e Cacau não apenas simbolizaram Lô Borges e Milton Nascimento na icônica capa do Clube da Esquina, como também encarnaram, sem saber, a história afetiva e vividamente brasileira que permeia todo o disco. Basta lembrar que os dois eram filhos de lavradores e passaram a infância jogando futebol, bola de gude, brincando nas cachoeiras e descobrindo a vida da forma mais genuína possível. Porém, quando as famílias de ambos se mudaram para longe, perto dos seus 20 anos, nada foi como antes: Tonho e Cacau acabaram afastados. Os dois só se reencontraram para a reportagem do Estado de Minas, décadas depois, quando notaram que a amizade havia se mantido, firme e forte, mesmo que o tempo e a distância dissessem não. 
Afinal, quem disse que, qualquer dia, os amigos não podem se reencontrar?

Texto produzido em: 25/01/2019