Os Transtornos do Espectro do Autismo – TEA são considerados como desordens no desenvolvimento que se manifestam na infância e são caracterizados por dificuldades nas áreas de socialização, comunicação e de comportamento. Como se trata de um quadro bem heterogêneo, as características nem sempre ocorrem de forma concomitante. Há crianças que apresentam os sinais de risco desde os primeiros dias ou meses de vida e outras somente após um, dois ou três anos de idade. A atenção por parte do profissional de saúde deve envolver não só a criança autista, mas também a família e/ou cuidadores. Deste modo, cabe ao profissional dar todas as orientações necessárias a fim de auxiliar no processo de desenvolvimento, promovendo assim uma melhor qualidade de vida para as crianças que se encontram dentro do espectro.
O CACI adotou o D.I.R/Floortime como modelo de tratamento para as crianças que lá são atendidas, por observar que os terapeutas não trabalham de forma isolada e por ver que a participação familiar influencia de maneira significativa no processo de desenvolvimento infantil. Quem explica do que se trata o método é Helena Gueiros, supervisora científica do modelo DIR/Floortime no CACI, fisioterapeuta e pós-graduada em psicomotricidade. “O DIR é um modelo de desenvolvimento humano que, a partir de seus princípios, permite-nos observar as capacidades do desenvolvimento pertinentes a todas as pessoas, mas que apresentam falhas nas pessoas que têm autismo. Além das capacidades do desenvolvimento, levamos, em consideração, a forma como o indivíduo com autismo percebe e responde ao mundo, ambiente, objetos e pessoas; o que chamamos de diferenças individuais. Essas diferenças individuais são observadas, a fim de que as pessoas que se relacionam com o autista modifiquem sua forma de agir para facilitar seu desenvolvimento”, afirma. 
Ainda segundo Helena, os relacionamentos são o pilar central desse modelo de desenvolvimento. “Acreditamos que sensibilizar os familiares da criança, adolescente ou adulto com autismo de qual a melhor maneira de facilitar a aquisição de habilidades sociais, emocionais e cognitivas é a forma como observamos grandes resultados. Quando utilizamos o DIR como modelo de intervenção, inicialmente, fazemos uma avaliação descrita pelos criadores do modelo e, nela, podemos perceber quais as necessidades de intervenção daquele indivíduo. Tal intervenção sempre envolve o floortime: técnica para facilitar o desenvolvimento das capacidades do desenvolvimento. Essa técnica é passada para os familiares seguirem a rotina do indivíduo, assim como que tipo de especialidade terapêutica esse indivíduo vai precisar. Por exemplo: um paciente que mostra baixa qualidade no desenvolvimento, e a diferença individual que mais impacta nesse processo são as alterações sensoriais, vai precisar, além do floortime, de um terapeuta ocupacional para trabalhar a integração sensorial. Por outro lado, podemos ter um paciente que seu processo de atenção tem impacto em uma alteração na linguagem receptiva. Nesse caso, a presença do fonoaudiólogo é fundamental na equipe terapêutica. Outra situação seria uma alteração de tônus, que gera dificuldades no controle motor. Nesse caso, seria necessário um fisioterapeuta”, disse.
No entanto, isso nem sempre é possível, pois, em muitos casos, uma pessoa com autismo mostra dificuldade em se relacionar com diversos profissionais ao mesmo tempo. “Quando isso é observado, precisamos eleger qual a principal área no momento, e esse profissional precisa ter um conhecimento básico das outras áreas do desenvolvimento para dar suporte durante os atendimentos. É claro que existem barreiras éticas e questões mais específicas de uma especialidade. Quando isso acontece, devemos encaminhar esse paciente ou até mesmo fazer atendimento em conjunto. O DIR proporciona para os profissionais uma visão transdisciplinar do desenvolvimento, porém sempre pensando nas áreas específicas e nos encaminhamentos necessários. Quando estamos com um paciente autista, por exemplo, trabalhando uma atividade motora, e ele se desregula emocionalmente por não ter conseguido realizar a tarefa, eu preciso ter um conhecimento básico de como dar suporte emocional para ele se reorganizar e poder continuar a realizar as atividades, caso perceba que exista uma necessidade de trabalhar essas questões emocionais de forma mais estruturada. Faço o encaminhamento desse paciente para o psicólogo”, afirma Helena, que ressalta, ainda, como o CACI auxilia a comunidade. “Há profissionais capacitados e que buscam atualização frequentemente, assim como existem discussões de casos semanais, onde podemos ter orientações transdisciplinares de todas as especialidades para facilitar o planejamento de estratégias para ajudar o paciente e a sua família. O autismo é um transtorno complexo e, por isso, para melhor desenvolvimento dos indivíduos, os profissionais envolvidos devem ter um conhecimento mais amplo e atualizado do assunto”, finaliza.

A seguir, você confere como diferentes especialidades trabalham com o autismo. 

Terapia Ocupacional

Débora Castro, Terapeuta Ocupacional

"A atuação do terapeuta ocupacional está ligada ao desenvolvimento das funções nas áreas biopsicossociais. No caso de crianças com autismo, voltamos nossa atenção para três grandes áreas de extrema importância na infância: AVDs (atividades da vida diária), atividades relacionadas ao trabalho escolar e o brincar. Quando falamos de AVD’S, destacamos as atividades básicas de vida diária de um indivíduo, essas que muitas vezes passam despercebidas no dia a dia, mas que, para alguém que apresenta alguma dificuldade em realizá-las, torna-se o instrumento chave de trabalho do terapeuta ocupacional. A criança aprende sobre o mundo quando interage com ele e com o outro, usando as informações que lhe chegam pelos sentidos. Essas interações se dão através do brincar, sendo este o principal recurso utilizado pela Terapeuta Ocupacional. Desordens do processamento sensorial podem ser comuns nos indivíduos com autismo, sendo necessário, através da integração sensorial, auxiliar este indivíduo a receber de forma harmoniosa as informações externas. Vale ressaltar que cada indivíduo é único e tem suas particularidades. Devemos olhar para seus potenciais e dificuldades isoladamente, a fim de desenvolver suas habilidades.
Iniciar a atuação focando na atenção e interesse da criança pelo mundo é o ponto principal para desenvolver habilidades futuras como de aprendizado e independência em suas funções do dia a dia.
Cabe ao terapeuta ocupacional introduzir, manter, se necessário adaptar e melhorar as habilidades para que as pessoas com autismo possam chegar à independência e autonomia e, consequentemente, a uma qualidade de vida".

 

Fonoaudiologia

Jayla Machado, Fonoaudióloga

"O Transtorno do Espectro Autista – TEA é uma condição geral para um grupo de desordens complexas do desenvolvimento do cérebro, antes, durante ou logo após o nascimento, que atinge a linguagem, a cognição e a interação social, com alterações de relacionamento, afetividade e/ou comportamento. Em relação à comunicação, os autistas podem apresentar alterações em níveis semânticos, pragmáticos, sintáticos, fonéticos e fonológicos. A terapia fonoaudiológica traçada por mim contém atividades lúdicas com objetivos específicos para evoluir satisfatoriamente tanto a comunicação geral quanto o desenvolvimento da linguagem receptiva e expressiva, oral, gestual e escrita. Tal terapia é baseada no modelo D.I.R.®/ Floortime™, que se alicerça no desenvolvimento funcional da criança, suas diferenças individuais e relacionamentos, seguindo seus interesses emocionais com apoio da afetividade ao mesmo tempo em que a desafiamos a ir em direção ao maior domínio de suas capacidades, com o objetivo de formar as bases necessárias para suas habilidades sociais, emocionais e intelectuais, em vez de se focar em comportamentos isolados. Essas capacidades são essenciais para o bom desenvolvimento global da criança. Ou seja, utilizamos o que a criança já apresenta para construir e expandir, ajudando-a a manter-se calma e regulada, ter interesse pelo mundo, interagir e envolver-se com os outros mais efetivamente. 
A linguagem não passa apenas pelo processo de oralização. Levamos em conta todo o gestual, o olhar, a parte escrita. Então é um erro afirmar que a criança que não fala ou a que fala pouco não se comunica. De uma forma ou de outra, ela sempre encontra um jeitinho de se expressar e, quando ela não consegue achar esse caminho, a fonoaudiologia entra em campo para ajudar tanto na parte de oralização quanto na expressão corporal e facial. Cada criança é de um jeito, uma pode falar muito, mas de forma desorganizada, enquanto outra fala pouco e se expressa mais de forma visual. Varia muito de acordo com cada caso. Um erro muito comum dos pais é falar pela criança, não ter a paciência de esperar que o filho se comunique. Essas crianças têm um tempo diferente de resposta e se alguém atropela esse processo por ansiedade, pode desestimulá-las a avançar nessa questão".

 

Fisioterapia

Aline Pereira Mota, Fisioterapeuta

"A fisioterapia no Autismo auxilia em todas as alterações relevantes em cada área sensório/motora, emocional e cognitiva, visando à necessidade de adaptar a intervenção para o perfil biológico de cada criança, tendo por objetivo formar bases saudáveis para o processo de desenvolvimento e de desenvolver, de maneira prazerosa e natural, suas capacidades, estimulando assim a atenção compartilhada; a capacidade de formar relações e ter confiança; a capacidade de iniciar usando ações intencionais e sociais, o que leva à comunicação espontânea; a habilidade em obter estratégias de resolução de problemas; as capacidades de ser criativo e de ter o pensamento lógico e abstrato. A fisioterapia auxilia também nas dificuldades posturais (que estão relacionadas ao tônus muscular) e na dificuldade com a práxis, que são dois tipos de dificuldades motoras com base sensorial. Essa dificuldade com a práxis, também conhecida como dispraxia, pode se caracterizar por apresentar movimentos pouco coordenados ou desorganizados nas áreas de motricidade grossa, fina e oral. 
Sendo assim, é importante estimular os receptores do sistema proprioceptivo que estão localizados nos músculos e nas articulações, pois são eles que informam ao Sistema Nervoso Central sobre a posição das partes do corpo e o movimento que estão realizando. Bater palmas, bater os pés no chão, empurrar objetos, são algumas atividades que sensibilizam os receptores proprioceptivos, assim, auxiliando no aumento do tônus, na postura e no desenvolvimento da práxis. Quando o sistema proprioceptivo funciona de forma eficaz, a pessoa adapta-se de maneira automática às mudanças de posição do corpo. É o principal sistema responsável pela capacidade de planejamento motor, isto é, pela capacidade de sequenciar movimentos de forma organizada para alcançar um objetivo. A disfunção nesse sistema pode manifestar-se em crianças rotuladas como ‘desajeitadas’, com tendência para cair, com dificuldades na motricidade fina e dificuldade em adaptar-se a situações novas".

 

Psicologia

Rebeca Codeço, Psicóloga

"Muitas pessoas acham que a criança autista é aquela que não fala. Já têm esse preconceito. Só que o autismo não tem apenas essa característica. Pode ter problemas de interação, não conseguir organizar o pensamento, pensar e executar uma tarefa. Quando a gente recebe essa criança aqui, consegue trabalhá-la como um todo; já na entrevista é possível avaliar o quadro e muitas vezes a criança em si nem precisa de atendimento, mas os pais sim. Porque quando os pais recebem o diagnóstico fechado de que o filho está dentro do espectro autista, é muito comum ocorrer um choque inicial. Existe todo um processo de aceitar essa criança e esse processo é fundamental, porque quando a criança percebe que ela é aceita do jeitinho que ela é, a relação muda. Tudo o que ela oferece para esses pais passa a ser bem-vindo. Por isso insisto que é importante que os pais não pulem etapas e vivenciem cada momento dessa experiência, mesmo que ela possa ser dolorosa muitas vezes. E é por isso que a psicologia está aqui, para apoiar essa família. Muitas vezes esses pais precisam resolver coisas entre eles, por isso a gente tem um olhar especial sobre essa questão familiar. Outra coisa que pode acontecer é passar um sentimento de culpa nos pais, pensar ‘por que o meu filho nasceu assim?’, ‘como eu vou amar essa criança?’. É preciso vencer isso para que o trabalho seja bem-sucedido. 
As terapias são realizadas de forma lúdica e adequada ao perfil da criança. Compreendemos que cada criança tem um perfil de processamento sensorial único e as vezes essas crianças não são compreendidas por causa de seus desafios com relação à comunicação e interação. É importante que a família valorize os pontos favoráveis da criança, colocando limites e participando com ela das descobertas do dia a dia. Trabalhamos essa interação, esse relacionamento familiar, para que as crianças possam se sentir seguras para se expressarem verbalmente ou não verbalmente. A partir do momento em que a criança é capaz de sentir segurança, ela vai ser capaz de criar relacionamentos, passar por novas experiências e assim ter novos aprendizados. 
Para alcançar um melhor resultado no processo de desenvolvimento das crianças com autismo, recomenda-se que a mesma seja acompanhada por uma equipe transdisciplinar, onde todos os profissionais estejam totalmente envolvidos e que sigam a mesma linha de conduta, sendo de suma importância para a evolução das crianças a comunicação e a troca de informações por parte dos terapeutas. Vale ressaltar que nem sempre a criança deve ser necessariamente acompanhada por todos os profissionais, por isso também é necessário conhecer o perfil da criança e de ter uma visão transdisciplinar".