Um dos perigos do cronista é tornar-se autorreferente. Mas que há de se fazer? Falar sozinho é uma desgraça. Ainda bem que Avelino Ferreira me ligou dias atrás para comentar a crônica sobre o livro do Juca Kfouri. (Muita gente foi para a internet detratar o Juca com os chavões de sempre, mas sequer leram a obra dele). Calma no Brasil, diria o Antonio Callado.
Mas fiquei feliz do Avelino ter me ligado para falar de literatura. É uma raridade. Por coincidência, na semana seguinte, ou pouco tempo depois, não me lembro, o Arnaldo Bloch utilizou seu espaço em O Globo para falar dos “novos boçais”. Revelando sua cultura rotineira (que não surpreende a quem o acompanha em jornal e livro, sobretudo “Os Irmãos Karamabloch”), Arnaldo citou desde Voltaire até Goethe e Thomas Mann para fazer a mesma denúncia que eu, timidamente, fiz: o desaparecimento do saber socrático, que sempre esteve mais presente na consciência da ignorância do que no narciso das convicções. 
Arnaldo reclamou, no texto, da supremacia dos “burros cultos”, aqueles sujeitos que leram tudo, mas não têm a menor ideia do que significa o que leram e, por isso, lhe faltam a consciência do não saber, transformando-se, portanto, em monstros de arrogância. Bloch cita também o “ignorante reativo”, para quem pouco importa a inteligência, pois o que o guia é a “necessidade de exterminar qualquer ideia que o force a pensar, reformular, ponderar”. A conclusão é que, a partir de comportamentos assim, “estaremos, em breve, condenados ao inferno dos infernos, onde todos seremos burros e ignorantes e, num terrível paradoxo, saberemos muito bem o que isso significa”. Arnaldo parece dizer que o melhor da cultura ocidental está em xeque. O gosto pela dúvida, pela reflexão, entra em declínio. É sugestivo, aliás, que um autor como Borges ainda seja tão pouco lido no Brasil.
Mas, enquanto esse caos descrito por Arnaldo não chega às raias do absurdo, me contento com os pequenos milagres diários, de que falava Bandeira. 
Há algumas semanas, por exemplo, abri o e-mail e lá estava um presente do Humberto Werneck, sem dúvidas um dos maiores guardiões da memória literária brasileira, pedra angular do jornalismo cultural do país e que está escrevendo a biografia de Carlos Drummond de Andrade para a Cia. das Letras (além de nos deleitar semanalmente com belíssimas crônicas no Estadão). 
Humberto me mandou, digitalizada, a matéria de capa que fez sobre João Cabral de Melo Neto para a IstoÉ, (melhor do que muitos livros sobre o poeta). E, como se fosse pouco, enviou, à parte, outra entrevista que fez com João para as “páginas vermelhas”, também da IstoÉ, em 1985. Entrei em transe ao percorrer aquelas páginas e ver um jornalismo de altíssimo nível dedicado a um pernambucano que quase levou a língua portuguesa ao Nobel, muito antes de cogitarem o Saramago para o prêmio. Um contraste enorme com os jornalões de hoje, que mal preservam a língua, quanto mais aqueles que a elevam...
Aliás, por falar em língua, o Oleg Almeida, poeta bielorrusso radicado no Brasil (que está traduzindo vários autores para o nosso idioma, sobretudo Dostoiévski), acabou de me mostrar sua recém-lançada tradução de “Humilhados e Ofendidos”, uma obra até então considerada menor pela crítica, mas que, lida à luz da pós-modernidade, mostra-se um dos grandes feitos de Dostoiévski, perscrutador inigualável da alma humana, que lançou “Crime e Castigo” quando um austríaco chamado Freud ainda era um imberbe de 10 anos. 
Oleg destoa do Brasil de que fala Arnaldo Bloch (que, curiosamente, também tem raízes russas). De certa forma, Oleg incorpora, para nós, uma tradição legada por Boris Schnaiderman, Otto Maria Carpeaux, Herbert Caro, Paulo Rónai, estrangeiros que se fixaram no Brasil e inflaram a cultura brasileira com o melhor da tradição ocidental. 
O engraçado é que, pensando nisso tudo, há poucos dias, em visita à Aparecida, esbarrei com uma frase atribuída a Dostoiévski em um dos painéis da basílica: “a beleza salvará o mundo”.
Se eu tivesse uma caneta e ali fosse um papel, assinaria embaixo.

Texto produzido em: 12/12/2017